bh | sp | rio - eng | port

O INDIE 2010 apresenta a RETROSPECTIVA APICHATPONG WEERASETHAKUL, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2010, com cinco longas e 20 curtas que foram especialmente selecionados pelo próprio diretor com exclusividade para este festival. Dentre os curtas estão os seus trabalhos mais recentes: Uma Carta para Tio Boonmee (2009), Mobile Men (filme-segmento que faz parte do longa Stories on Human Rights, 2008) e Pessoas Luminosas (também um filme-segmento do longa O Estado do Mundo, 2007), além de outros completamente inéditos no país.

MEU NOME É JOE, SIMPLES ASSIM

"Eu acredito que o cinema tem vida própria. Especialmente quando se está editando, você precisa deixar que o filme te diga o que fazer. Você tem que estar aberto e não manter as coisas apenas em nome do roteiro, mas sim pela liberdade do público." (Apichatpong Weerasethakul, Cinema Scope, 2010).

O artista contemporâneo é aquele que através de sua pesquisa tecno-estética se utiliza de vários suportes para sintetizar seu plano/conceito e chegar à obra. Não importa tanto quais os meios ele se utiliza para sintetizar isso. Artistas comumente trazem temas recorrentes durante sua vida, que são objeto de seu olhar escrutinador, de sua mania, quase uma obsessão investigativa. Uma espécie de colecionismo de idéias, enciclopédia particular que é construída de maneira subjetiva e conscientemente organizada.

O artista tailandês, Apichatpong Weerasethakul, conhecido pelo carinhoso apelido de Joe, é um desses artistas e por mais que todos o considerem "o cineasta premiado", ele foge aos rótulos e se encaixa perfeitamente neste novo profile do artista contemporâneo. Mais do que um "diretor de cinema" com um projeto de filme em produção, Joe está com sua pesquisa em processo, e seu work in progress pode ser visto em seus filmes curtos ou longos e na suas filme-instalações interativas mas, principalmente, nos seus assuntos recorrentes que vão perpassar toda sua obra.

Apichatpong formou-se em Arquitetura pela Universidade de Khon Kaen em 1994, cidade onde seus pais médicos trabalhavam num hospital. Mas foi nos EUA que estudou cinema, no Art Institute of Chicago, concluindo seu mestrado em 1997. Em 1999, ele fundou sua produtora Kick the Machine e começou a produzir seus próprios projetos e a dar apoio para outros artistas experimentais e independentes na Tailândia.

A atração que sentimos pelos filmes asiáticos contemporâneos se confirma na paixão que Apichatpong Weerasethakul tem despertado mundialmente. Para ver e compreender o que ele diz, nosso olhar ocidental precisa buscar outro tempo, desbloquear certo entendimento lógico tradicional, sem as amarras das imposições narrativas inspiradas na centenária gramática de Griffith. O tempo lógico e as sequências narrativas são dois dos elementos mais experimentais do cinema de Joe. Os elementos de pesquisa recorrente, que podem ser observados em quase todos os filmes, são de ordem temática (enunciado) e ordem formal (enunciação). Nestes dois campos se cruzam a intenção de sua pesquisa científica ou religiosa.

Joe ao longo de seu processo perscruta: a cultura oral tailandesa - a exposição desta cultura através da fala ou "do fazer falar" os seus personagens (muitas vezes atores não profissionais) que ele estimula através de entrevistas em tom quase documental (longas anamneses, por ex.); a força da natureza, (que vem da forte tradição budista de seu país) como soberana ao homem e respeitada por este; as forças sobrenaturais (o animismo, o homem incorporado, mediúnico, do espírito encarnado, meio-homem, meio animal); a não linearidade sonora: o jogo do "escuto o que não vejo, vejo o que não escuto" (elementos de extra-plano que lembram a enunciação: "sim, estou vendo um filme"); os planos longuíssimos, silenciosos e poéticos (espécie de jogo hipnótico de observação que gera uma sensação de sonhar acordado); a desconstrução do plano e contra-plano. E, ainda, temáticas como a afetividade homossexual; a reencarnação (um dos pilares do Budismo) como elemento de dúvida e comprovação, a presença do militarismo tailandês.

"A natureza para mim é um vício – eu gosto da imagem, do verde, do som... Mas é muito delicado manter o equilíbrio para não repetir o que você fez antes. Então eu tento não usar a floresta demais e apresentá-la de uma maneira diferente. A floresta no filme é algo estrangeiro, com um som pesado, mas costumava ser nosso lar. Por isso quando voltamos para a floresta ou para a caverna, é como se os personagens e o público estivessem voltando às suas raízes." (Apichatpong Weerasethakul, Cinema Scope, 2010)

Dentre os filmes aqui reunidos, está seu primeiro longa, Objeto Misterioso ao Meio-Dia (2000), uma espécie de "documentário construído" (inspirado no jogo surrealista Exquisite Corpse). Nele já se revela seu interesse nos relatos e na pesquisa da linguagem oral do povo tailandês. Sua proposta é montar uma história contada, dar sequência e encenar novamente com atores não-profissionais. Preto e branco, experimental, o filme serviu de base para seus primeiros argumentos que seriam levados adiante em quase todos os filmes subsequentes. Já acontece ali, por exemplo, as longas anamneses ou entrevistas médicas - recurso para desvendar as almas contraditórias de seus personagens e seus médicos. As imagens das crianças com os elefantes são algo especial no filme.

Eternamente Sua (2001) está centrado em três personagens, Roong, Min e Orn. O filme começa com uma longa anamnese com o personagem birmanês, Min, que está com problemas de pele. Sua condição de imigrante ilegal não o permite dizer quase nada. Aos poucos, a verdade vai sendo revelada. O amor da tímida Roong, de maneira não linear vai conduzir a história. Seu recato será perdido na exuberância das montanhas da floresta tropical, junto ao rio. Já o desassossego de Orn, mulher de meia idade, confusa e pouco confiável, busca o prazer sexual a qualquer preço. Premiado como melhor filme da mostra Un Certain Regard, Cannes, 2002.

Em As Aventuras de Iron Pussy (2003), Apichtapong faz um filme de baixíssimo orçamento que é na verdade um pastiche, tendo como personagem principal um herói travesti.

É com Mal dos Trópicos (2004) que Apichatpong ganha o primeiro prêmio do júri em Cannes 2004. Este é seu primeiro filme a sintetizar a força de sua linguagem e sua pesquisa. O amor homossexual entre Keng e Tong é suave e corre tranqüilo até a metade do filme. "A floresta é um lugar estrangeiro mas é a nossa casa", comenta Joe. Na segunda parte do filme, o jovem Tong some na floresta. Ao entrarmos lá, surgem os elementos mágicos, a força animista da hibridização homem-fera, os animais que relatam histórias. O amor como grande impulsionador de certo enfrentamento que tem a ver com a sexualidade. O medo incontrolável da lenda, as escolhas, o Karma. Qual caminho Ken vai tomar, quais as intenções? Joe explora o sobrenatural como parte da força viril do homem. Uma árvore de vagalumes revela o poder da imagem para a incompletude dos pensamentos do espectador.

A pergunta recorrente de Joe, em quase todos os seus filmes, é como são as memórias das vidas passadas? Há mesmo a reencarnação? O projeto para seu último longa, já vinha há muito sendo pesquisado.

Em Síndromes e um Século (2006), filme que enfrentou sérios problemas de censura na Tailândia, a busca pelo relato continua. O monge que sonha com galinhas e que não consegue dormir atormentado por seus pecados; o dentista que gosta de música romântica e trata com um carinho a mais o outro monge que gosta de rock; a médica que usa técnicas não científicas para aplacar a dor. A estrutura narrativa em duas partes, pode sugerir uma complementação. De um lado, a exuberância da mata, prolongada na intensidade dos desejos, latentes do re-descobrir. Os apaixonados pela ativa e inteligente Dra.Toey (Nantarat Sawaddikul). Sua entrevista de trabalho com, o tímido e triste, Dr. Nohng (Jaruchai Iamaram) nos revelará que gostar de círculos, quadrados ou retângulos pode fazer sentido. Ah... e prêenche-los com cores ou não, a lápis ou a caneta. De outro lado, a Bangoc que cresce sem respeitar mais as crenças, representada no calculismo frio e interesseiro da esposa de Nohng. O primeiro hospital é rural e exuberante, o segundo é frio, urbano, moderno. A sensação é de que os dois pólos estão cindidos: tradição/desenvolvimento, quente/frio, natural/artificial. Estagnados pelo cotidiano de uma vida que segue a revelia.

"O cinema preserva o espírito das pessoas que morreram." (A.W.)

(f.azzi)