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Vinte e três filmes para entender Kiyoshi Kurosawa. Japonês, 55 anos, diretor de cinema, uma carreira em plena e constante reinvenção, um cineasta incomum.

Os primeiros filmes apresentavam um humor, que de certa forma vai estar presente, diluído ou não, no cinema de Kurosawa. Seja no legítimo pinku eiga Guerra de Kandagawa (1983) ou em Vigia do Subsolo (1992), que traz elementos do terror, mas de forma histriônica (a moça bem comportada e o assassino enorme e anencéfalo que vive no underground). Assim como nos seis filmes da série cômica Se vire ou Que se Dane! (1996): os personagens de Sho Aikawa e Koyo Maeda interpretavam os autênticos malandros da baixa máfia japonesa, daqueles que fazem qualquer coisa para se darem bem. Aliás, dois atores acompanham o cinema de Kurosawa: Sho Aikawa e Kôji Yakusho. O filme Cure (1997), responsável por sua descoberta internacional, traz a interpretação brilhante de Yakusho, que se torna um ator símbolo de Kurosawa, interpretando protagonistas ou pequenos papéis em oito filmes: Permissão para Viver (1998), Carisma (1999), Pulse (1999), Sessão Espírita (2000), Doppelganger (2003), Vítima de uma Alucinação (2006), e Sonata de Tóquio (2008).

É a partir de Cure que Kurosawa se torna estigmatizado como um cineasta de gênero - o de terror, fantástico. Mas esse é um rótulo que parece não incomodá-lo. Sempre autêntico, mas buscando transpor os limites sensíveis entre arte e entretenimento, e nem por isso fazendo um cinema fácil, Kurosawa parece usar o terror e o medo como poderia usar um outro elemento qualquer, para concretizar sua ideia de cinema: o filme é algo entre a realidade e a ficção.

Mas como um homem japonês, vindo de uma cultura predominantemente budista e xintoísta, é obcecado pelo questões essenciais: o que acontece quando morremos? Depois da morte, é o nada?

"Todo mundo morre, portanto não existe razão lógica para que os fantasmas não existam". Atormentado pela visão de um fantasma, o personagem Kawashima lê essa passagem num livro, em busca de explicações, no filme Pulse. Os fantasmas de Kurosawa, e no contexto da cultura japonesa, fazem parte da dinâmica da existência. Viver e morrer formam uma unicidade. Em sua existência, um indivíduo se alternaria entre estados de vida e estados de morte.

Visto assim, é compreensível entender porque adaptações do cinema de terror japonês realizados por Hollywood perdem em essência e sentido. Não se trata apenas do susto ou terror, ou do uso de elementos paradigmáticos da linguagem deste gênero (som, música, montagem etc.), mas de uma sutileza cultural no entendimento da dinâmica dos estágios da existência.

Kurosawa talvez seja sempre identificado por seus filmes fantásticos, mas é interessante perceber que em todos os seus filmes estará presente – incluindo os de "não-terror" como Licença para Viver e Sonata de Tóquio – a estranheza, o desencontro, os distanciamento entre ação e pensamento, e os conflitos da existência dos indivíduos. "Eu estou mesmo vivo?" pergunta Yutaka, em Licença para Viver.

Kurosawa vai sempre nos fazer pensar, mesmo sem contextualizá-los muito, o porquê das ações de seus personagens. Se um fantasma aparece e existe, ele tem algo a dizer. Se vejo um fantasma, eu tenho algo a aprender. Se, como em Sonata de Tóquio, eu não sei como dizer a minha família que eu não sou mais um ser trabalhador, qual o valor da minha existência? Se o meu pensamento me fez matar, como sobreviver a isso? Se uma árvore é mais importante que uma floresta, porque não viver por ela?

A organicidade, aquilo que nos faz humano, em todas as suas dimensões da vida e da morte, e as ações e compromissos perante a nossa existência (sejam elas boas, más ou monstruosas), parecem ser uma das formas de desvendar o cinema de Kurosawa san. (D.A)