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“O sonho inquietante é, na verdade, um momento de loucura passageira”.
(Voltaire, citado no filme A Besta de Walerian Borowczyk)

O tempo nos traz...

Desde que surgiu há 16 anos em Belo Horizonte, o Indie Festival sempre buscou uma identidade própria. Essa identidade ficou ainda mais fortalecida quando há 10 anos atrás aconteceu sua primeira edição em São Paulo, no CineSesc. Isso fez com que nossas escolhas conceituais e estéticas priorizassem um cinema independente internacional de autor - na sua ampla contemporaneidade, mesmo quando em retrospectiva.

Em tempos políticos difíceis, num país como o Brasil, onde a exibição de um cinema comercial, vazio e pasteurizado, é dominante e avassaladora em termos de números de salas, filmes e público; o cinema independente encontra sua força nesse espaço privilegiado dos festivais de cinema. Nunca, na história do Indie Festival, foi tão importante que este cinema resistisse. É preciso falar deste cinema, e mais do que falar: exibi-lo. Um festival é uma oportunidade de se mostrar o quanto o cinema independente é plural, o quanto a cada ano este cinema está mais forte e mais bem posicionado comercialmente no mercado internacional e com públicos cada vez mais ávidos por um cinema-arte.

Não há como negar que os tempos estão difíceis para a cultura no país e foi necessário nos adequar. O Indie Festival 2016 fez uma seleção mais rigorosa este ano, apresentando uma programação mais compacta, densa, que está dividida em: Mostra Mundial que apresenta filmes inéditos no Brasil, Retrospectiva (do artista e cineasta polonês) Walerian Borowczyk e a mostra de filmes clássicos, restaurados, dentro do programa Clássica.


Ele: Walerian Borocwzyk
e.. a Andrzej Zulawski, in memoriam

De uma troca de emails com o cineasta Andrzej Zulawski - o diretor polonês conhecido no Brasil pelo filme Possessão e morto prematuramente em fevereiro de 2016, conheci Daniel Bird. No email, Zulawski me dizia que infelizmente não poderia vir ao Brasil para uma retrospectiva de sua obra porque estava literalmente cansado e não aguentaria nem a viagem, nem os admiradores de Béla Tarr - uma referência sarcástica a uma retrospectiva do cineasta húngaro que realizamos em 2011. Um olhar para o cinema quase oposto ao seu.

Daniel Bird era amigo pessoal de Zulawski e me apresentou seu projeto de restauração dos filmes de outro polonês, também um iconoclasta e inquieto artista: Walerian Borowczyk. Pouco conhecido no Brasil, a não ser através de seus dois filmes mais polêmicos: Contos Imorais e A Besta, o projeto não apenas restaurava os filmes curtas e longas de Borowczyk, como fazia uma grande revisão de sua obra como cineasta, designer de figurinos, cenários, objetos, adereços, animador, e em todos os sentidos um grande “faz-tudo” em seus filmes.

Nessa seleção curatorial, realizada por Bird, 13 filmes serão exibidos, com destaque para seu primeiro longa de animação O Teatro do Senhor e Senhora Kabal (1967), Goto, Ilha do Amor (1978), Blanche (1971), e os mais eróticos: A Besta (1975), Contos Imorais (1976) e História do Pecado (1975). As polêmicas em torno de Walerian Borowczyk, aposto, continuarão. ... porque não há como não se afetar pelo seu cinema.


Os 13 escolhidos

Na Mostra Mundial apresentamos treze filmes inéditos no Brasil. Dos 13, 3 diretores tiveram retrospectivas completas de suas obras nas outras edições do festival e estão com filmes novíssimos, lançados nos últimos festivais de Locarno, Roterdã e Cannes, são eles: Albert Serra (Indie 2014), Philippe Grandrieux (Indie 2009) e Kiyoshi Kurosawa (Indie 2010).

O catalão Serra traz sua leitura autoral em A Morte de Luís XIV, sobre os momentos finais de dor e agonia do amado Rei da França, interpretado pelo ator-símbolo do cinema francês: Jean-Pierre Léaud - queridinho da nouvelle vague, de Truffaut e Godard. O diretor francês Grandrieux mantem firme sua estética e seus desafios de acuidade visual em Apesar da Noite, como em seus filmes anteriores, uma bela mulher (Ariane Labed) busca a si mesma, na dor e na violência do prazer sexual. O mestre do cinema japonês, Kiyoshi Kurosawa retorna ao cinema de gênero com Creepy. Divide o conflito entre dois personagens principais, um bom detetive (Hidetoshi Nishijima) e um psicopata (interpretado pelo genial Teruyuki Kagawa) numa trama perfeita.

Dos diretores mais experientes e com grande repercussão nos festivais de Cannes e Berlim 2016, destacam-se ainda a originalidade temática e narrativa de Alain Guiraudie (Na Vertical) e a precisão dramática de Mia Hansen-Løve (O que Está por Vir) conta com a atuação brilhante da atriz Isabelle Huppert.

Dois filmes, de novos diretores, terão exibição especial, por apresentarem uma duração incomum: o japonês Happy Hour de Ryusuke Hamaguchi que narra os dilemas da vida de quatro amigas, em um pouco mais de 5 horas; e Mais um Ano da nova diretora Shengze Zhu, um projeto excepcional que registra 13 jantares de uma família chinesa de trabalhadores emigrantes, na China, ao longo de 14 meses. Um filme que dura 3 horas, duro e revelador.

Completam a curadoria: o austríaco Peter Schreiner com Lampedusa, a francesa Pascale Breton com Suite Armoricaine, o chinês, Zhang Hanyi, com produção de Jia Zhang-Ke, A Vida Após a Vida, o norte-americano, Ted Fendt com Short Stay e o japonês, Ryosuke Hashiguchi com Três Histórias de Amor.


Apenas... Clássica (ano#2)

Clássica é um projeto da Zeta Filmes que nasceu em 2015 para viabilizar o lançamento nos festivais e nos cinemas brasileiros de filmes antigos, clássicos ou cults, em digital. Uma tendência mundial de resgate de conteúdos históricos e restauração de filmes que permanecem na nossa memória.

Foram selecionados para o programa Clássica dentro do Indie Festival: Estranhos no Paraíso (1984) - a obra seminal do diretor Jim Jarmusch, considerado um dos pioneiros do cinema indie norte-americano, como o conhecemos hoje. O Homem que Caiu na Terra (1976) do diretor inglês Nicolas Roeg, um dos filmes antológicos dos anos 1970, com a presença primordial de David Bowie no papel do empresário Thomas Jerome Newton, um alienígena que vem à Terra a procura de água e se depara com um capitalismo mais do que “selvagem”. O clássico dos clássicos, do diretor francês Alain Resnais, Hiroshima Meu Amor (1959) com sua plasticidade, poética, beleza e horrores da 2a guerra no Japão. O inesquecível Blow-up (1966), primeiro filme em inglês do diretor italiano Michelangelo Antonioni, baseado em um conto de Julio Cortázar, sobre a representação fotográfica, a imagem narcísica das novas mídias, em uma abordagem “benjaminiana” de uma semiótica da cultura.

Francesca Azzi
Curadora do Indie Festival


Baixe o catálogo do Festival INDIE 2016 aqui.