16 a 30 de setembro
sp
pt

Retrospectiva

Sharunas Bartas

Sharunas Bartas: o homem que saiu do frio

A nostalgia contemporânea não é tanto sobre o passado mas sobre fazer desaparecer o presente”

S. Boym, The Future of Nostalgia

Em 1990, Sharunas Bartas, então com 26 anos, realizou seu segundo curta-metragem de 40 minutos chamado Na memória de um dia que se foi. Uma espécie de documentário com um tom melancólico sobre um dia na vida dos habitantes de uma cidade lituana fria e visivelmente marcada por seu passado. Nele, estão os primeiros sinais do estilo que marcaria a sua cinematografia – Bartas é um dos artistas mais completos e proeminentes do cinema europeu atual. Possui um talento nato para escrever, atuar, dirigir e produzir seus filmes. Está escrevendo de maneira original a história do cinema lituano.

A Lituânia, para quem não sabe, é um dos três países Bálticos, juntamente com a Bielorússia e a Letônia, situados na Europa Oriental. São países que a partir dos anos 1940, foram forçosamente anexados à União Soviética, vivendo sob o domínio comunista até 1991. Depois da Glasnost, a Lituânia foi a primeira república soviética a se libertar da URSS, através de seus movimentos separatistas. Mas as últimas tropas soviéticas, só deixaram totalmente o país em 31 de agosto de 1993.

Sharunas Bartas nasceu em 1964, na cidade de Siauliai, mas se formou em cinema no VGIK - Instituto Estadual de Cinematografia da União Soviética, em Moscou, em 1991. Segundo a pesquisadora de sua obra, Renata Šukaitytė (i), “Bartas é um dos poucos diretores do cinema lituano que constantemente lida com a experiência traumática do comunismo e a constituição de uma identidade para aqueles que viveram em um extinto território soviético. Seu interesse nessas problemáticas podem ser explicados pelo fato de Bartas ter começado sua carreira cinematográfica nas vésperas do colapso da União Soviética e ter produzido seu primeiro filme profissional no período de mudanças políticas e culturais, logo depois que a Lituânia anunciou sua independência”.

Ainda na era da Perestroika, implantada pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev, em 1989, criou a sua produtora Kinema Studio, que não era apenas a primeira produtora independente da Lituânia, como também uma espécie de pólo de criação e inspiração para toda uma nova geração de diretores que emergiam nesse momento pós-soviético. Segundo Šukaitytė eram eles: Audrius Stonys, Artūras Jevdokimovas, Rimvydas Leipus, Valdas Navasaitis. Bartas criou uma maneira única de investir em sua produtora, conseguindo aos poucos reconhecimento internacional em grandes festivais e ganhando prêmios. Seu primeiro longa, Três dias, estreou na Berlinale, em 1992, e ganhou prêmios europeus e indicações, trazendo a primeira repercussão internacional para a Kinema Studio.

Apesar de todo seu envolvimento político e histórico com a nova realidade que surge na Lituânia, pós-comunista dos anos 1990, o cinema de Bartas trata essas questões de maneira sutil. Suas imagens quase nunca são completamente explícitas. Nunca faz falar demais ou expõe seus personagens. Sua opção é pelo tempo certo e observador, não-narrativo, imperfeito. O tempo de um roteiro, às vezes improvisado, e marcadamente não-verbal. Prefere observar os rostos, a beleza feminina, os homens decadentes e pobres. Longos planos, longos silêncios e atores não-profissionais em um ambiente extremamente destruído pelo abandono e pelo impacto nostálgico do passado criam comparações entre o cinema de Bartas e do diretor húngaro Béla Tarr.

"Não é que eu não curta escrever os roteiros. (...) Desde meus últimos filmes, eu tenho trabalhado com uma sinopse de duas a dez páginas, simplesmente a história e as intenções, mas isso não representa um problema em termos de financiamento porque todos sabem que eu trabalho assim e as pessoas aceitam. Em seguida, eu escrevo um plano para mim, sequência por sequência com uma frase para cada cena: alguém vai ali e faz isso, alguém diz isso etc. E eu tenho todas as cenas em uma ou duas páginas. É realmente um passo necessário, e eu dou essas duas páginas para a minha equipe, que trabalha, de acordo com o que há nas cenas, na seleção de locações, atores etc. Eu posso fazer tudo sem um processo completo me pesando. Eu nunca falo nada para os atores, e eu nem digo para a equipe exatamente o que eles devem esperar. É desnecessário, já que tudo é muito frágil: nós devemos capturar os momentos que surgem naturalmente, e que não podem acontecer quando as cenas são totalmente escritas. Eu já estive nos sets de filmes de Leos Carax e Claire Denis e eles possuem roteiros enormes os quais gastaram dois anos escrevendo, eu tinha algumas pequenas falas, mas eu as apresentei da minha própria maneira, e isso funcionou perfeitamente com eles. Eu não sei se podemos chamar isso de improvisar ou não. Isso funciona quando atores querem e sabem como se adaptar" (ii).

Em retrospectiva, no INDIE Festival, estão sete longas e um curta (de 1990 a 2010) e a première brasileira de seu último filme Paz para nós em nossos sonhos que estreou em Cannes 2015, na Quinzena dos Realizadores.

Talvez o conjunto da obra de Sharunas Bartas possa ser visualizado em três grandes momentos. O primeiro, uma fase de observação antropológica, atrelada a esse movimento de libertação do seu país, ainda sem grandes perspectivas de mudança, personagens de uma distopia, em Na memória de um dia que se foi (1990), Três dias (1991), O corredor (1995). Um segundo momento, sua derivação estética, em busca de novas identidades, a figura do estrangeiro, alguém que poderia reconquistar um novo território e uma nova identidade: Alguns de nós (1996), A casa (1997), Liberdade (2000) e Sete homens invisíveis (2005). E um último momento, no qual parte para as questões mais subjetivas, unindo uma força mais ficcional: atua nessa espécie de thriller entre a Rússia e a França, O nativo da Eurásia (2010), e no seu último filme Paz para nós em nossos sonhos (2015).

Em Paz para nós em nossos sonhos – uma nova Lituânia e um novo espaço subjetivo, (um tanto mais otimista), a natureza é verde e pulsante, as mulheres que o conclamam ao diálogo, um filme de resgate do amor. Aqui ele introduz sua filha, a atriz Ina Marija Bartaité, fruto de seu relacionamento com a atriz russa, presente em muitos de seus filmes, Yakaterina Golubeva, falecida precocemente em 2011. A personagem de Bartaité diz: “Eu sempre quis falar mais da minha mãe mas nunca encontrei o momento certo”, ao que ele responde: “Vamos falar agora”. Por alguns instantes temos imagens de Yakaterina Golubeva. Ele está falando de si mesmo, da sua vida pessoal.

"Não há nada para explicar. Eu não gosto da palavra 'arte', mas é verdadeiramente arte. Em arte, não há nada para explicar. É mais uma questão de suscitar perguntas ou mostrar algo. No geral, em literatura, em pinturas, na música e no cinema, o que podemos fazer é mostrar um pedaço da vida das pessoas. Nossas almas estão muito próximas, mas estamos todos muito isolados e não conseguimos ver quem somos do lado de fora. Ao mostrar esses pedaços da vida de algumas pessoas, nós conseguimos dar um passo para trás, conseguimos apenas sentir que estamos próximos dessas pessoas e nos sentimos menos sozinhos. Essa é a principal razão: estar perto de alguém que está falando diretamente da alma, alguma coisa que difere do tipo de diálogo que normalmente temos em nossas vidas diárias." (iii).

Da primeira fase, Três dias, seu primeiro longa de 1991, traz dois garotos lituanos que passeiam por Kalingrado (uma cidade portuária russa, um enclave conhecido pela suas influências alemãs e bálticas que situa-se ao sul da Lituânia). Nessa viagem sem muitos diálogos, apenas alguns fatos acontecem na perambulação dos jovens por este terreno inóspito e obscuro: uma aproximação sexual com uma possível namorada (Yakaterina Golubeva), um hotel de encontros, uma festa, um bar, a cidade fria e ampla, uma fazenda, um cachorro, o campo. Mas o grande personagem é esta falta de lugar, esse não-território, essa sensação de inadaptabilidade, de solidão. Os jovens estão em um mundo degradado, sem raízes, conformado, sem conforto, sem dinheiro, sem futuro. Por quê Bartas resolve voltar a Rússia, quando era dela que estava se libertando...? Segundo Šukaitytė, havia uma nostalgia nas ex-cidades e ex-sociedades soviéticas. Trauma e nostalgia definidos por ela nas dicotomias de um passado traumático, estático, coletivo mas sobretudo guiado pela grande mão desse pai comunista.

"Eu fiz vários filmes sem diálogos. Com o meu primeiro filme, eu comecei com diálogos, mas depois percebi que isso não correspondia a quem os atores eram, e que eles começaram a sofrer por causa disso e não seguir as regras. Então eu tive que me livrar do diálogo após três dias, e decidi que conseguíamos fazer sem. Quando nós trabalhamos com uma face humana, nós conseguimos ver em seus olhos e expressões faciais o que ela quer dizer, e às vezes até mais. E sobre o momento do filme que você mencionou (em Paz para nós em nossos sonhos), eu demorei 20 anos para alcançar esse tipo de diálogo, para que ele fosse real e natural." (iv).

Em algumas entrevistas, Bartas aponta O corredor e A casa como seus filmes preferidos. Senão o mais intenso de todos, O corredor é um dos mais impactantes, sem dúvida. Traz planos inesquecíveis ao observar um menino pobre, de um condomínio também pobre, uma espécie de cortiço, buscando algo a se viver, sem grandes acontecimentos. Os personagens parecem trancados em seu mundo, incomunicáveis, nesse novo território “entre” que não leva a lugar nenhum. A cena dos lençóis queimando no varal são uma bela metáfora do abandono. Já A casa cria, segundo Bartas, uma conexão com a memória dos seus bisavós.

Uma casa abandonada, ocupada pela memória de seus herdeiros. O produtor Paulo Branco se junta a Bartas, nesse requinte estético. Um filme bem diferente do restante da obra porque mais abstrato mas que reafirma o vazio essencial de seus personagens.

“Sabe, A casa me traz memórias muito fortes. Lembro que antes de escrever o roteiro para o filme, eu estava em luto por causa da morte do meu bisavô e aquela casa ficou ali vazia. A casa era alugada para estudantes, tinha uma quantidade enorme de pilhas de lixo debaixo da escada onde ratos buscavam comida. Os estudantes eram muito preguiçosos para jogar fora o lixo, então simplesmente jogavam tudo para fora da janela. Eu tive a ideia de morar em Siauliai, nesta casa, e uma vez voei pra lá com um amigo de Moscou. Fiquei reformando a casa durante o verão. Naquela época a vida parecia longa pra mim.” (v).

Em Sete homens invisíveis, Bartas escolhe a região da Crimeia (antiga região ocupada pelos soviéticos e depois pelos ucranianos) como locação para essa espécie de road movie. Sua intenção era partir e rodar na estrada dura até que seu personagem principal, um homem sem lei, um outsider, vendesse o carro roubado. Ele leva seus parceiros e a amante até a casa de sua família, pobre, na roça. No mesmo espaço, familiar e social, divide o coração com suas duas mulheres e a filha, além de amigos e vizinhos - todos encorajados pelo álcool, a interagir agressivamente.

Bartas é capaz de criar grandes situações íntimas, dentro de lugares fechados, entre grupos de pessoas que apenas estão juntas pela falta de iniciativa para um movimento contrário. Em Alguns de nós, ele quase literalmente joga do helicóptero a sua personagem feminina (vivida pela bela Yakaterina Golubeva) dentro da casa de um povo em extinção, os Tofalar. Talvez para sentir como seria possível criar um espaço de convivência, des-territorializada, vivenciada subjetivamente.

Essa retrospectiva pretende instigar os espectadores do INDIE a assistir a obra completa desse grande artista, não só para mergulhar nessa cultura absolutamente desconhecida para nós, mas no estilo inigualável de Bartas. Tudo a bom tempo. Para quem vem do frio, Bartas é um artista com o coração quente.

Francesca Azzi
Curadoria

i The Drift along a Traumatic Past in the Cinematic Worlds of Šarūnas Bartas de Renata Šukaitytė.(Kunstiteaduslikke Uurimusi; 2012, Vol.21 Issue 3/4, p122)

ii Entrevista concedida ao site da Cineuropa.org em 2015 para Fabien Lemercier

iii Idem

iv Idem