16 a 30 de setembro
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Retrospectiva

Kira Muratova

O mundo de Kira Muratova

Há alguns cineastas que não podem ser chamados de “cineastas,” deve-se inventar uma palavra melhor para eles. Estes poucos têm talento para criar um mundo único, não-existente, que nos é familiar e no qual não hesitamos em acreditar. Paz com os estranhos trágicos e tolos que repetem tudo por duas vezes em seu abençoado mundo de pessoas tristes, falíveis, sábias, selvagens e apaixonadas — o mundo de Kira Muratova. Não conheço nenhum outro diretor cujo nome evoque imediatamente uma imagem de tal modo que se possa dizer: "Bem, é apenas Muratova,” e tudo fica claro. Há um mundo: o mundo de Kira Muratova, e ela é única. Incomparável!

Anna Melikyan, cineasta russa, em um texto recente para a revista Kinoart

O festival Indie tem o prazer de apresentar uma retrospectiva dos filmes de Kira Muratova e muito orgulho de exibir nove longas e dois curtas-metragens de uma das maiores cineastas vivas no mundo. Este programa com pouco mais da metade de sua produção fílmica visa dar uma ideia do mundo de Muratova a partir de um percurso por toda a sua obra, desde seu primeiro curta-metragem Chuva de primavera (1958) até Eterno retorno (2012), o filme que a artista de 80 anos, mas ainda jovem, anunciou como seu último.

Os filmes da retrospectiva serão exibidos a partir de uma combinação de restaurações em DCP e cópias em 35 mm bem preservadas, todas fornecidas pelo Centro Nacional de Cinema Oleksandr Dovzhenko da Ucrânia. Esse conjunto de peças delicadas representa não apenas a primeira retrospectiva brasileira dessa brilhante cineasta, mas também o primeiro percurso da maioria de seus trabalhos por este país. Além de seu filme mais célebre, Síndrome astênica (1989), acreditamos que esta é a primeira vez que a obra de Muratova será exibida publicamente no Brasil.

Muratova é uma figura-chave no cinema artístico soviético e russo, e está conectada a várias outras. Foi por diversas vezes aluna devota de Sergei Parajanov, parceira e alma gêmea de Aleksey German e uma figura materna para Alexander Sokurov. Seus filmes mostram muitas confluências com as obras desses cineastas, mas sempre mantiveram suas características próprias.

Kira Georgievna Korotkova nasceu em 1934 no que é hoje a Moldávia. Seu pai foi um patriota russo que morreu lutando pela causa soviética durante a Segunda Guerra Mundial; sua mãe, uma ginecologista judaica do Partido Comunista Romeno, levou a jovem Kira para viver em Bucareste. Ela frequentou o cinema durante a infância e se apaixonou por muito do que viu, entre os filmes estrangeiros se encantou especialmente pelas obras de Charles Chaplin, Robert Flaherty e Federico Fellini.

Mais tarde, estudou na principal escola soviética de cinema: o Instituto Estadual de Cinematografia da União Soviética (VGIK). Lá, conheceu seu primeiro marido, Alexander Muratov, com quem co-dirigiu Chuva de primavera e seus dois filmes subsequentes. Chuva de primavera (nunca antes exibido fora da antiga União Soviética) conta uma história de amor chapliniana sobre dois jovens operários que se apaixonam enquanto exploram sua cidade juntos e se enredam no sonho inocente de passarem a vida com uma alma gêmea. O filme, tal como muitas das melhores obras de Muratova, contém uma tensão que faz com que as pessoas, inicialmente mais rígidas, tornem-se mais abertas ao mundo que as rodeia e, ao encontrarem satisfação nesse processo, consigam seguir cada vez mais adiante.

Após se graduar na escola de cinema, Muratova muda-se para Odessa, onde passa a realizar a maior parte de suas obras (todas em diálogo russo). Sua carreira solo no cinema começa com o díptico formado pelos silenciosos e românticos filmes intitulados Breves encontros (1967) e O longo adeus (1971). A própria cineasta protagoniza o primeiro filme como uma burocrata solitária cuja vida muda com a chegada, em sua casa, de uma mulher mais jovem, a qual compartilha com ela a ausência de uma pessoa amada; no segundo, uma mãe e seu filho adulto se separam e, com a ausência do patriarca da família, voltam a se unir.

Ambos os filmes foram proibidos pelos censores soviéticos que consideraram esses estudos íntimos da vida emocional como ameaças burguesas ao Estado. Após a conclusão de O longo adeus Muratova fica inclusive proibida de filmar por vários anos antes de dirigir Conhecendo o grande e vasto mundo (1978).Sua primeira obra a cores aborda um triângulo amoroso ambientado em um canteiro de obras rural, onde surge uma nova comunidade formada por pessoas que eram anteriormente marginais. O filme considerado o favorito de Muratova é sua única colaboração com o famoso estúdio soviético Lenfilm; após concluí-lo, ela retorna para Odessa. Antes de circular um pouco, essa obra ficou temporariamente proibida e a cineasta foi advertida pelos censores para parar de fazer filmes sobre temas contemporâneos.

Sua situação muda em 1986 com o surgimento da glasnost e a supressão da censura sobre inúmeras obras de arte anteriormente proibidas. A atenção alcançada por Muratova com a recente circulação de seus filmes mais antigos ajudou a lançar luz sobre as novas obras. Seu primeiro filme pós-glasnost, Mudança de destino (1987), narra a estória engenhosamente circular de uma prisioneira que relata o assassinato de seu amante. Enquanto fala, suas palavras parecem transformar o formato do aposento, criando uma indelével experiência plástica. Em seguida, Muratova cria um filme ainda mais incomum, Síndrome astênica, uma absurda comédia épica sobre várias pessoas isoladas que lidam com pequenos e grandes apocalipses em uma sociedade à beira do colapso.

A complexa interação entre o som e a imagem de Mudança de destino criam a sensação de que espaços fechados e abertos rodeiam um ao outro tal como tigres. Síndrome astênica é igualmente mais denso e selvagem na representação de uma explosão que, após anos em formação, está prestes a ocorrer. O Urso de Prata, recebido por este filme no Festival de Berlim, é o maior prêmio internacional da carreira de Muratova. Síndrome também se destaca como o único filme soviético censurado (ainda que brevemente) sob o governo de Gorbachev — devido à longa cena individual de uma mulher, em um trem, cuspindo obscenidades, a qual, conforme afirmou Muratova posteriormente, poderia ter sido mais longa.

Síndrome astênica funciona como ponto central dessa retrospectiva, pois se encontra no meio de nossa série cronológica (composta por cinco filmes antecedentes e cinco posteriores) e marca uma mudança clara em sua obra. Depois de Síndrome, seus filmes passam a focalizar cada vez mais a invasão do espaço público. Muratova segue os personagens pelas ruas e os observa passeando entre as multidões à medida que repetem frases e se envolvem com pessoas que conhecem ou não, como se todas as relações humanas fossem obras em desenvolvimento. A linha que separa os atos espontâneos e os encenados fica obscurecida enquanto os personagens são empurrados para situações de incerteza existencial, gerando novos possíveis começos para suas vidas.

Nesta retrospectiva, os filmes pós-Síndrome pertencem às décadas mais produtivas de Muratova — aos sessenta e setenta anos de idade — quando os principais obstáculos à sua produção tornam-se mais econômicos do que políticos, e quando, apesar de tudo, ela realiza uma série de obras brilhantes que tentam romper antigas ordens alimentadas por ilusões para que novas sejam criadas. Três histórias (1997) oferece exatamente o que o título promete. As histórias interligadas sangram umas sobre as outras enquanto personagens impotentes confrontam anjos negros que lhes revelam a aparência de seus desejos encarnados. O curta-metragem posterior Carta para América (1999) apresenta um poeta do sexo masculino e uma vigarista do sexo feminino inventando maneiras de se ajudarem a alcançar o sucesso pessoal.

Motores de Tchekhov (2002) sobrepõe adaptações de dois textos de Anton Tchekhov — um sobre a unidade familiar rural ferida com a partida do filho mais velho para a universidade e outro sobre uma concorrida cerimônia de casamento assombrada por fantasmas do passado do casal. O filme transmite a sensação de que vivemos com essas pessoas. Os temas do escritor convergem com os temas da cineasta enquanto personagens problemáticos enfrentam o caos em suas buscas por resoluções e até mesmo pela paz, em cenas repletas de vulnerabilidade que são filmadas em branco e preto.

A obra de Muratova tem recebido atenção irregular fora da antiga União Soviética. Lá, porém, sua reputação é reverenciada: seus três últimos longas-metragens ganharam o Nika de melhor filme (prêmio de cinema nacional da Rússia) pela Comunidade dos Estados Independentes e dos Países Bálticos. O Indie exibirá dois desses filmes.

Dois em um (2007) começa em um teatro, com os assistentes preparando a performance da noite em meio a um turbilhão de complicações; com o início do espetáculo, o palco se transforma em uma mansão e os artistas, anteriormente vislumbrados em roupas normais, transformam-se em parentes briguentos e amantes potenciais inseridos em uma nova realidade. Eterno retorno (2012) funde vida e arte por meio de elegantes repetições das mesmas três cenas desempenhadas por vários pares de atores diferentes. Muitos dos atores de ambos os filmes podem ser reconhecidos nas obras anteriores de Muratova, desde o primeiríssimo Chuva de primavera. Todos trabalham em conjunto com a cineasta ajudando a criar uma deliciosa sensação de continuidade. Como os nomes dos atores e membros da equipe se repetem ao longo dos créditos dos filmes, podemos perceber Muratova criando um mundo atemporal sempre em expansão, repleto de amigos e familiares que foram deixados livres para se comportarem como quiserem.

Muratova anunciou que, devido à saúde frágil, Eterno retorno será seu último filme. Ela ainda reside na Ucrânia e criticou sua recente revolução por considerar que um conjunto de belos ideais foi arruinado pelo derramamento de sangue. Muratova alega frequentemente que sua casa mais segura e confortável é o cinema. Apesar de nossa retrospectiva carecer, inevitavelmente, de alguns de seus grandes filmes — tais como The Sentimental Policeman (1992), The Tuner (2004) e Melody for a Street Organ (2009), para citar apenas três — o público do Indie encontrará um estoque insubstituível de tesouros e iguarias.

Nossa exibição não seria possível sem o Centro Nacional de Cinema Oleksandr Dovzhenko, que forneceu os filmes juntamente com o catálogo e material de pesquisa. Agradecemos também a ajuda de Ekaterina Bogomolova, Michelle Carey, Anton Dolin, Alexei Jankowski, Roger Koza, Boris Nelepo, Jane Taubman, Ryan Krivoshey (da distribuidora The Cinema Guild), Rodrigo Brandão (da Kino Lorber), Vladimir Nepevny (diretor do excelente documentário de 2003, Kira), Jean-Christophe Simon, Michal Oleszczyk e de todos os cineastas que fazem homenagens a Muratova em nosso catálogo.

Outras duas pessoas devem ser mencionadas: Evgeny Gusyatinsky que, ao organizar uma retrospectiva completa de Muratova para o Festival de Roterdã no início de 2013, foi o primeiro a inspirar este programa, e Mariana Shellard cujo entusiasmo pelo espírito de Muratova também passou a nos inspirar.

Muratova diz que faz filmes para si mesma e para os poucos que irão amá-los. Termino com esta observação, desejando bons filmes a todos.

Aaron Cutler
Curador

Aaron Cutler é crítico e programador de cinema. Seus textos críticos já foram publicados nas revistas internacionais Cineaste, Cinema Scope, Film Comment, Sight & Sound e The Village Voice, entre outros, e podem ser lidos em seu site pessoal The Moviegoer (http://aaroncutler.tumblr.com). Fez a curadoria da retrospectiva do cineasta Lav Diaz (Mostra de São Paulo, 2013); e idealizou e fez a curadoria da retrospectiva "Arquitetura como Autobiografia: Filmes de Heinz Emigholz" (Centro Cultural São Paulo/Instituto Moreira Salles - RJ, 2015) juntamente com Mariana Shellard e Anamauê Artes Visuais.