16 a 30 de setembro
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Clube

da Crítica

* Os textos publicados aqui são resultado do Clube da Crítica, coordenado pelo jornalista Marcelo Miranda. A proposta do Clube é colocar em questão algumas ideias sobre a crítica de cinema e incentivar a reflexão.
Postada em 14/09/2015 por Nayla Avelar

A loucura entre nós (2015) é um documentário brasileiro que apresenta uma proposta observativa em que pessoas reais de um mundo real estão, ali, para o exame e edificação do espectador. Esse modo de registro enfatiza o engajamento direto no cotidiano das personagens que representam o tema explorado pela cineasta Fernanda Vareille: o complexo universo da demência. Em meio a uma pluralidade de vozes, o filme elege discretamente Elisângela e Leonor como atrizes sociais principais da narrativa.

Pacientes do Hospital Juliano Moreira, em Salvador (BA), elas transmitem seus estados íntimos de tristeza, raiva, alegria, reflexão, lucidez e delírio para uma câmera que oferece livre expressão às personagens, como representação de um mundo social muito particular que está mais próximo do público do que ele pode imaginar. É isso que evocam as cenas dos arredores da instituição. Um lugar que, apesar de ser também periférico, ali tudo parece funcionar normalmente. Como um pacto de sanidade social que ora é respeitado, ora não, mas que se mantém de pé. Por conta disso, a retórica do filme não exime o espectador de determinado ponto de vista político. Em uma fala reveladora, a jovem Elisângela sintetiza: “somos todos loucos uns pelos outros”.

O distanciamento que Vareille estabelece nessa posição de observadora expõe pacientes e internos ocupados de seus fazeres dentro e fora da instituição. Os momentos em que entra-se nas alas de internação retratam a loucura como ela é comumente percebida, uma dura e impactante alienação. Em contraste, outros pacientes que fazem parte da ONG Criamundo são mostrados em um caminho rumo à reinserção no mercado de trabalho, na família e na sociedade. E é nesta trajetória que o longa-metragem acompanha Leonor e Elisângela durante três anos. A longevidade cronológica não é imediatamente percebida devido a um tipo de montagem que não privilegia os cortes para dar uma sensação de tempo e espaço únicos. Ao contrário disso, há uma montagem de evidência que organiza as ações das personagem de modo a sustentar uma conexão entre os depoimentos e a evolução da psique de ambas as mulheres que têm distintas estruturas socioeconômicas.

A produção destaque-se, especialmente, por abordar questões e problemas recorrentes – que carecem de atenção –, outros modos de percepção e soluções possíveis. Quem não é louco quando despido de suas máscaras sociais? Como naqueles bonecos que caminham à noite por ruas vazias, inseridos no decorrer da história, há sempre um outro no interior de cada um.