16 a 30 de setembro
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Estamos nostálgicos

“Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido” ( Jean Baudrillard em “Simulacro e Simulação”)

Acabaram-se os telefonemas de longa distância discados por uma telefonista na cabine da telefônica, na volta da praia no verão, com os pés queimando nas havaianas surradas e...cheias de areia; acabaram-se os cliques das Kodak Instamatics e a ansiedade ao buscar o filme 35, ASA 100, nas lojas fotopticas da vida; acabaram-se as polaroides lindas e borradas e seus eternos 10 minutos de espera instantânea! Acabaram-se as cartas escritas à mão ou na sua Olivetti velha, de tinta vermelha e preta. Acabaram-se as idas ao correio, a coleção de selos, a espera pela resposta. Acabaram-se as esperas. A carta de amor, a resposta da amiga no intercâmbio no exterior; que chato, acabou-se o dilema.

Acabaram-se os tipógrafos, as impressões artesanais, o linotipo.

Jogamos fora o tape-deck, o toca-disco, o 3 em 1, doamos nossos LPs em vinil, nosso walkman, nossas K7 com as seleções dos anos 80. Doamos nossa câmera Super 8, e guardamos no armário nossos VHS.

Queríamos ser modernos.

Acabaram-se os novos filmes em 35mm, o fotograma, o negativo, as cópias cheias de textura e profundidade. Acabou-se o barulhinho do projetor ao fundo, a sensação da luz da projeção atravessando a sala. Acabou-se a Kodachrome, o formato 1.33, o Cinemascope. Acabaram-se, em parte, os cinemas de rua.

Dizem que o mundo melhorou. No mundo do passado, o tempo simplesmente passava sem sobressaltos. Não existia o verbo “ticar”. Você poderia esperar na varanda, na rua, na casa da avó, deitado, olhando a cara do tempo... Você olhava para o nada. Você batia papo na locadora de vídeo.

Estamos nostálgicos.

Queremos algo daquela experiência de volta. Voltamos a deixar a barba crescer, a vestir roupas de puro algodão, a plantar tomates orgânicos, a andar de bicicleta, a moer o café, a exigir a presença de alguém. Queremos uma samambaia bem verde caindo da cristaleira na sala. Queremos subir o Monte Roraima e sentir frio, fome, medo. Queremos voltar a ver o Machu Picchu, comprar artesanato na feira, e comer comidas de rua. Queremos parques, quintais, comida fresca, e quem sabe tomar banho de rio, procurar por uma cachoeira, criar bichos. Queremos ir ao cinema, ver pessoas de carne e osso, assistir a um filme clássico, falar com o outro tomando um café. Estar presente num festival de cinema.

Queremos imprimir nossos cartazes de maneira artesanal.

Queremos a rua.

Estamos cansados de ser virtuais, tecnológicos, descolados. Estamos cansados de consumir coisas descartáveis. Queremos ser mais humanos. Materializar a vida. Brincar de pedra, papel, tesoura.

Queremos tudo, do ontem e do agora, e nos sentir próximos do nosso passado, agarrá-lo, decifrá-lo, analisá-lo. Queremos que nossos filhos saibam quem somos e quem fomos. Folheando o álbum de família amarelado. Queremos chorar ao assistir nossos VHS antigos. Queremos lembrar como era na época da faculdade, da greve, dos movimentos estudantis. E queremos ser melhores ainda e aceitar tudo e todos. Queremos viajar e esquecer... sentir, tomar cerveja com os amigos e desmaiar na rede, sem responder ninguém. Sem postar nada. Queremos não responder a um chamado, uma mensagem, ficar em silêncio por alguns minutos, ou algumas horas e resgatar o ócio.

Estamos com saudades de nós mesmos.

A rebeldia dos 15

O INDIE Festival completa seus 15 anos de idade aqui e agora. E talvez, seja ainda um pequeno rebelde. Sempre em busca de reflexões sobre o cinema independente. Sem querer corresponder a nenhuma lógica externa de mercado ou à regras que determinem seu formato e escolhas, chegamos em um momento crucial de mudanças.

Queremos voltar no tempo com as retrospectivas e avançar para além do contemporâneo, ao mesmo tempo. Queremos ver nosso público instigado. Desejamos que o menino de 18 anos que veio ao primeiro INDIE em 2001, pela primeira vez em Belo Horizonte, retorne, física ou mentalmente, ao INDIE hoje com seus 33 anos. E que este menino seja um homem com um olhar crítico para o cinema como um todo. Queremos que o cinema seja uma escola livre para o pensamento crítico. Queremos que algo de fato aconteça.

(Francesca Azzi, Diretora do INDIE Festival)