Música do Underground

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VER-REVER O PUNK
movimento, filosofia, arte, cinema, música

O lançamento do primeiro álbum dos Ramones, em 1976, é considerado o nascimento do punk rock. Porém, quando Legs McNeil e John Holmstrom fundaram o zine "Punk" em 1975 em um porão qualquer de Connecticut, a rebeldia e a música que eliminava solos de guitarra e negava qualquer postura vendável já estavam lá com MC5, The Velvet Underground e os Stooges, para citar alguns nomes. Formado por boa parte de nerds fãs de quadrinhos ou leitores assíduos de autores que outrora batizaram a contracultura, o punk tinha mais fundamento em músicas curtas e diretas como um soco na cara. Elas amplificavam questões filosóficas adolescentes, que de acordo com o sistema deveriam ser logo esquecidas em troca da vida adulta, na qual se vive para trabalhar e obedecer. Questionar, neste caso, é resistir. E foi o que muitos fizeram. Resistência esta que começou tímida em Nova Iorque, ainda influenciada pela era glitter, teve a desconfiança dos mais puritanos em Londres, ganhou proporções gigantescas em Los Angeles no início dos anos 1980 e enfim tomou o mundo.

Apesar da natureza mutante do movimento, os pioneiros deixaram como seu maior legado um "modus operandi" adaptável a inúmeras causas que, como as inicialmente proferidas, eram abafadas pelo sistema. O punk se tornou uma ideologia que coloca no volume máximo tudo que a sociedade prefere manter como um sussurro. Até mesmo as minorias do movimento, oprimidas e silenciadas pela natureza masculina e fisicamente brutal das primeiras ondas do punk rock, encontraram nos moldes do início do punk uma forma de engatilhar suas próprias trajetórias. Assim como McNeil e Holmstrom, foi com um zine, acompanhado de um manifesto, que Kathleen Hanna e Tobi Vail (da banda Bikini Kill), Allison Wolfe e Molly Neuman prepararam as fundações para a vertente feminista do movimento, chamada de riot grrl. Antes mesmo do riot grrl, a América do Norte acompanhava em seu underground a efervescente cena queercore, o espaço dedicado à expressão das causas LGBT no movimento. O empoderamento através da conquista de visibilidade (o ato de fazer visível e divulgar a sua causa e a sua vida) sempre esteve firmemente atado ao punk (mesmo que ocorra através uma "visibilidade" sinestésica – que acerta os ouvidos além dos olhos, literalmente, em gritos e chamados).

Este espectro que envolve acordes, ética, política e ironia tomou proporções que iam além da música e provavelmente por identificação e necessidade, muitas formas de expressão se aliaram ao punk. E o cinema tem parte desse caos muito mais organizado que muitos pensam. Diretores como Nick Zedd, Sogo Ishii, Penelope Spheeris, Alex Cox, F.J Ossang, Amos Poe, Lech Kowalski, Bruce McDonald, Julien Temple, entre outros, diluíram este microcosmo em narrativas, documentos e manifestos audiovisuais. Kowalski, McDonald e Temple figuram nesta mostra com trabalhos seminais para a definição do punk.

O programa de documentários Música do Underground (MU) aborda o punk como movimento, filosofia, arte, expressão, e claro, música. Cinco documentários traçam o panorama do que o punk – repito, algo tão difícil de se definir – foi, sua explosão para o grande público e o que se tornou através de mutações que perduram até hoje.

Em comum, todos partiram da necessidade de protesto e do conceito "Faça Você Mesmo". Conceito este que chega ao seu ápice em Crass - não há autoridade além de si (Crass – There Is No Authority But Yourself) de Alexander Oey, no qual o grupo anarco-punk, formado em 1977, reconhecido pela defesa à ação direta e pela grande autonomia sobre o próprio trabalho, eleva esta força à luta contra o conformismo e vivem da escrita, pintura e jardinagem, orgulhosos de nunca terem se rendido ao grande sistema, ao contrário de seus contemporâneos.

Malcom McLaren é o pilar de A grande farsa do rock and roll (The Great Rock 'N' Roll Swindle), dirigido por Julien Temple, um tour de force sobre a sempre dúbia postura dos Sex Pistols em relação a qualquer coisa, absolutamente. E nada melhor que a falta de legitimidade para registrar a (in)coerência dos Pistols como punks, produto e principalmente como grandes vítimas. Se o punk foi mesmo uma jogada perpetuada por McLaren para ganhar um milhão de libras vendendo roupas e discos ao criar ícones com apenas um álbum lançado, tanto faz, pois o gene de sua ideia foi além. The Punks Are Alright de Douglas Crawford mostra estes efeitos indo do Canadá com os Forgotten Rebels a Indonésia do Superman Is Dead, passando pelo Brasil dos Blind Pigs, para mostrar que existe algo maior que a estética e o amor pela música. O punk é uma saída para a necessidade de existir em países imersos em opressão e terror.

Mesmo tocando em feridas que insistem em continuar abertas, o programa Música do Underground (MU) mostra a importância cultural e afetiva do punk no mais ousado de seus filmes: Hard Core Logo, de Bruce McDonald. O filme exibe todas as contradições do punk como a necessidade de afirmação e a cultura da autodestruição em forma de paródia ao acompanhar a banda fictícia Hard Core Logo na estrada. Conhecido pelo uso do punk como cerne de suas histórias – seja como estética, como eixo dramático ou pelo uso de expoentes do gênero como Joey Ramone e Jello Biafra no elenco de seus filmes - McDonald tinha propriedade para fazer este tipo de abordagem por justamente ser testemunha das incoerências da cena norte-americana. Seriam estas incoerências herança dos Pistols?

Seguindo o grito de guerra "girls to the front" de Kathleen Hanna, que convidava o público feminino a se tornar o pelotão de frente, tomando as primeiras fileiras dos shows do Bikini Kill, o MU abre espaço para a expansão da voz feminina no contexto punk. O queercore é o foco de She's Real (Worse Than Queer), DIY em sua feitura, a verdadeira captura do epicentro de uma luta por espaço, respeito e segurança, explicado na angustiada voz de suas próprias protagonistas. No comando dos dois filmes, duas mulheres inseridas nas trincheiras do punk rock, Sini Anderson e Lucy Thane, respectivamente. A representatividade surge diante e por trás das câmeras.

E se tudo isso provavelmente não teria acontecido sem eles, o MU exibe End of the Century – The Story of The Ramones, documentário fundamental para fãs de rock, independente de gêneros. Joey, Johnny, Dee Dee, Tommy e mais tarde Marky, Richie e C.J. lutaram pelo reconhecimento do grande público e foram idolatrados pelo underground, especialmente no Brasil e na Argentina. Hoje eles são uma instituição representada por milhares de camisetas espalhadas pelo mundo e, infelizmente, os fundadores do grupo não viveram para ver a glória dos árduos anos viajando em uma van apertada. Mas a história por trás da banda é uma das mais intensas, tristes e por que não, divertidas de todos os tempos.

Não planejamos uma viagem saudosista através destes filmes, mas sim um olhar necessário para o que ficou para trás antes de um novo passo. O que mudou na música e no comportamento a partir do punk? O que podemos fazer de novo? E de novo? Se houve alguma revolução através deles, ela foi por acaso e completamente alheia à indústria. Independentes. Chegou a nossa hora.

Pedro Tavares
Curadoria

Colaboração Ana Clara Matta

CineSESC
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