Retrospectiva Eugène Green

Filmes

"Pensar o cinema é resolver os problemas concretos: estrutura narrativa, imagem, som, trabalho dos atores. Mas é antes de tudo se situar diante as principais interrogações metafísicas do homem ocidental, afinal a cinematografia nasceu delas (dessas interrogações)." *1

Um cinema de palavras. O mundo dos sentidos de Eugène Green nasce e sobrevive através do discurso. Nascido nos Estados Unidos, em 1947, Green foi para a Europa aos vinte e poucos anos construir sua identidade. É francês, ponto. Quase desconhecido no Brasil, e ocupando um lugar de risco no cinema autoral, Green é tão original que criou um léxico próprio: interpretação, textos, entonações, música. Um homem culto, dramaturgo, teórico das artes e poeta, com vários livros publicados, estudioso do barroco e amante da música.

O que é dito em seus filmes é sagrado, Green quer que o espectador seja tocado (espiritualmente, talvez) pelos sentimentos ditos, não necessariamente por expressões corporais, arrombos interpretativos, murmúrios ao pé de ouvido, ou falas banais, há todo um ritual para que o espectador veja (literalmente) o que é dito. Pare, veja e escute. Mas não é teatro, é cinema. Há todo uma complexidade do quadro fílmico, escolhas dos planos frontais, contraplanos e pontos de vistas.

Na verdade, Eugène já estava com tudo planejado quando realizou seu primeiro filme Todas as noites, em 2001, quando tinha 54 anos. Seu estilo inconfundível já nasceu com o primeiro filme. Uma certa construção muito própria da interpretação dos atores: a entonação, a postura do corpo, a posicionamente da câmera, um antinaturalismo, sem improvisação. Perguntado como nasceu esse seu projeto estético, ele diz:

É difícil responder essa pergunta. Eu decidi ser cineasta aos 16 anos, mas só consegui aos 50. Eu nunca fiz faculdade de cinema nem trabalhei em set de filmagem, mas tive muito tempo para pensar. Então quando comecei, eu não tinha aprendido nenhuma regra, mas tinha visto muitos filmes, e eu tinha também uma bagagem cultural em outras áreas, como literatura, música e artes visuais. Quando eu comecei a escrever o roteiro do meu primeiro filme, Todas as noites, aos quarenta anos, eu "vi" o filme na minha cabeça, e tentei descrever no roteiro tudo o que eu via. Desde então, eu procedo da mesma maneira. Em relação a estes elementos de atuação, eu peço aos atores que falem como se tivessem falando a si mesmos, que eles não procurem fazer nenhum efeito retórico, que é muito intelectual, e cortam o fluxo do sentimento de verdade. Pela mesma razão, eu peço a eles que não façam gestos supérfluos: toda a energia interior deve passar pelo rosto, ou por movimentos precisos (como um movimento das mãos e dos pés). Eu não procuro ser 'antinatural' mas procuro captar o que está escondido na natureza. O 'naturalismo' de muitos filmes é realmente falso, pelo menos é o que me parece. Na trama de um filme, os personagens não olham para câmera, eles olham entre si, como na vida real. Mas para que o espectador receba plenamente o olhar de um personagem com o outro, eu me sinto livre em colocar a câmera entre os dois personagens. Isso dá, tecnicamente, um 'olhar na câmera', um pecado mortal, segundo às regras acadêmicas. Essa estética se colocou espontaneamente ao longo da criação do meu primeiro filme, e como ela me convém, eu continuo a segui-la.

Se o teatro, o barroco, os elementos espirituais e, principalmente, a palavra constrõem a estrutura fílmica de Eugène, cabe aos atores não apenas interpretar, mas ser um canal de expressão, com uma energia interior espiritual, de um texto perfeito. Muitos atores se repetem em seus filmes como Alexis Loret e Christelle Prot nos três primeiros filmes – Todas as noites, O mundo dos vivos e A Ponte das Artes. Eugène explica o que busca em um ator:

Eu procuro antes de tudo, em um ator, uma interioridade que corresponde àquela do personagem e uma adesão ao projeto artístico. Ainda mais, na maioria dos meus personagens, eu sinto uma forma de amor que nós podemos chamar de compaixão. Como tem certos 'tipos' recorrentes de personagens dos meus filmes, eu tenho tendência a formar uma ligação de amizade com os atores com quem trabalho - o que corresponde a minha relação com os personagens - então é logico que eu chame os mesmos interpretes para vários filmes. Mas a cada filme há um novo ator, o que é bom também, porque isso faz entrar um elemento desconhecido. Quando se trata de personagens negativos, como o Indomável em A Ponte das Artes, o ator atua mais, justamente porque são personagens que não tem a mesma interioridade que os outros, no qual a existência se limita a uma comédia social.

A mítica representação do mundo capturada pelo cinema, instantes fragmentados que ocupam o quadro, parecem ter uma dimensão filosófica, uma relação típica da existência. Para Eugène o lugar do cinema, e seus significantes cinematográficos, é revelar ao espectador a estado real do presente:

Para mim, o presente é o único tempo real, que contém tudo o que era e o que está por vir. O problema do mundo de hoje é não existir no presente. Cada vez mais, graças à "revolução digital" e da barbárie universal (duas coisas que estão relacionadas), a maioria das pessoas vivem em um mundo "virtual" que os excluem do presente, e eles se recusam categoricamente a incorpora-se do passado, resultando a interrupção de transmissão. Uma vez que não temos o agora, eles não têm, também, o futuro, que cria uma ansiedade, sem que eles procurem encontrar uma solução. Meus filmes sempre giram em torno da necessidade de buscar a realidade do presente, e de repente ter que viver harmoniosamente, com o passado e o futuro.

Green realizou seus dois últimos filmes em países diferentes. A religiosa portuguesa (2009), em Lisboa, Portugal, e o último La Sapienza (2014), na Itália. Nunca querendo falar ou responder em inglês, e se referindo a sua terra natal, os Estados Unidos, como o País dos Bárbaros, Eugène explica o significado da sua escolha por uma outra identidade:

O fato de ter nascido no País dos Bárbaros me fez entender a importância da diferença que existe entre as verdades culturais, e apreciá-las. Eu sei o valor de uma verdadeira identidade, que é um tesouro que deve crescer e se desenvolver, e que, em vez de nos aproximar dos outros, permite-nos avaliar sua alteridade daquilo que nos torna especiais. É verdade que me sinto em casa em todas as culturas europeias, mas quando vejo um filme asiático ou sul-americano, não parece "exótico", porque, a partir de minhas especialidades, reconheço a humanidade que está no fundo deles. (Os bárbaros são incapazes de fazer filmes reais, e além disso, eles chamam os seus filmes de "imagens em movimento").

Com cinco longas e três curtas lançados nos últimos 13 anos, Green explica este espaço entre filmes: do lançamento de A Religiosa Portuguesa (2009) ao lançamento de La Sapienza, no último Festival de Locarno, se passaram cinco anos:

Este intervalo foi um período de grande sofrimento. Não era previsto que durasse tanto tempo (o roteiro de La Sapienza foi escrito em 2007), mas isso se explica pela dificuldade de achar financiamento para esse tipo de filme. Eu ocupei meu tempo escrevendo, mas de repente, agora tenho vários livros que estão esperando ser publicados e vários roteiros. Espero que esse tempo "entre os filmes" não seja tão longo.

Em A Ponte das Artes era um diálogo com a música, em A religiosa portuguesa com a literatura, em La Sapienza é a arquitetura (no filme, um arquiteto francês viaja à Itália para encontrar inspiração e conhecimento no trabalho de seus ídolos Guarini e Borromini). Como estudioso e apaixonado pelas artes, Green diz porque esta escolha por Borromini (gênio da arquitetura barroca italiana do século 17):

Desde meus estudos de história da arte na década de 1970, eu sempre fui fascinado por Borromini, que para mim é o grande místico e artista, que segue o seu caminho a todo custo, mesmo que isso feche a porta do sucesso social. Nisso, ele era o modelo contrário de seu rival Bernini. Eu devo sentir alguma identificação com ele. Desde a época que eu fazia teatro, entre 1977 e 2001, chamei a minha companhia de Théâtre de la Sapience.

Ter a oportunidade de conhecer o cinema de Eugène Green é se confrontar com a utilização original da sintaxe cinematográfica, com uma ideia conceitual sobre a feitura e a construção fílmica. Como Green disse em seu livro Poétique du cinématographe: "Qual interesse há em mostrar ao espectador um plano das nuvens, se ele não vê aí outra coisa a não ser o que ele percebe, de manhã, olhando pela janela?"2. É preciso atravessar as camadas óbvias dos sentidos que lhes são dados pelas imagens e recriar outros, infinitamente.

Daniella Azzi

1 "Penser le cinéma, c'est résoudre des problèmes concrets: structure narrative, image, son, travail des acteurs. Mais c'est d'abord se situer par rapport aux principales interrogations métaphysiques de l'homme occidental, car c'est d'elles qu'est né le cinématographe." GREEN, Eugène. Poétique du cinématographe. Actes Sud Littérature - Hors collection, Outubro, 2009.

2 "Quel interet y a-t-il a montrer au spectateur un plan de nuages, s'il n'y voit pas autre chose que ce qu'il apençoit, le matin, en regardant par sa fenetre?". GREEN, Eugène. Poetique du cinematographe, Actes Sud, Arles, 2009, P. 50.

CineSESC
Rua Augusta, 2075 | Cerqueira César
19º55'29.1"S 43º57'46.8"W