Retrospectiva Albert Serra

Filmes

O artista e 'enfant terrible' da Catalunha é a cara do cinema contemporâneo

Dom Quixote de Cervantes é bem mais do que apenas um personagem, é um ícone da literatura mundial. Mas para Albert Serra, o sonhador mais parece ser um velho rabugento, cheio de manias e no controle de seu servo e fiel escudeiro Sancho Pança - uma relação de mão única, sem diletantismo. Em Honra dos cavaleiros ao observar com certa distância os dois personagens somos paulatinamente transportados para um outro tempo e espaço. Serra mantendo-os nesta distância do olhar nos faz enxergá-los de uma maneira muito original. Desmitifica, destruindo o mito, para salvar o lado humano de algo que já estaria congelado no tempo. É como se Dom Quixote renascesse. Da mesma maneira, o faz com Casanova que está velho e decadente em História de minha morte, observa-o em suas excentricidades e excessos e o torna demasiado humano. Um Drácula imaginário desponta mais violento e sexual, menos realista e misturado à Casanova levanta questões sobre o desejo.

Os filmes de Serra trazem essa lógica, criam universos novos para personagens quase já surrados de significados e remodela a sua maneira micro histórias, nos resgatando para dentro da diegese ou ficção. É como se, de repente, a leitura de um velho livro ficasse muito interessante novamente. Não há como não cair no jogo de significações propostas por ele. Não há como não nadar no rio, andar a cavalo ou sentir que o sol está queimando ou sentir os cheiros dos banquetes. Por trás de toda essa pesquisa está um forte tom sensorial, navegamos com ele. Assim a caminhada dos Os Três Reis Magos nos parece tão visceral, e tão poética em O canto dos pássaros. Nunca teríamos pensado nesses Reis vagando cheios de silêncio e dúvida em tão belas e semiáridas paisagens por aí.

Albert Serra não parece ter medo das palavras. E nem tão pouco do fazer cinematográfico. Atrito e caos são duas palavras que poderiam definir o seu processo de criação. Processo que começa com a escolha de atores não profissionais, discussão com a equipe (podemos observar de perto este processo no filme O Senhor fez em mim maravilhas), passa pela releitura de personagens clássicos da literatura ou da iconografia mundial e chega na reinvenção de uma cinematografia - uma escrita única em que trabalha como louco: edita, monta, reedita infinitamente cheio de fôlego para restabelecer sua poética visual.

Muitas palavras definem ainda esse espanhol, nascido em Banyoles, em Girona na Catalunha, em 1975 mas que aos 18 nos foi estudar em Barcelona (Filologia Hispânica e Teoria literária espanhola, talvez daí seus diálogos metalinguísticos). Determinação, experimentação, recriação, e uma capacidade de se comunicar sem rodeios são apenas algumas delas. Serra recentemente venceu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno (2013) por seu filme História da minha morte.

Nesta entrevista a revista Cinema Scope, Albert Serra nos mostra suas escolhas dentro de seu processo criativo, suas ideias, seu espírito livre e polêmico e como lida com a crítica internacional em sua definição de "unfunckable".

(Versão original aqui)

(Francesca Azzi)

Francesca Azzi

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