Mostra Mundial

Filmes

Um menino não quer comer, seus pais insistem, mas ele não consegue, há um boi na sala da casa, que só ele vê (Queda livre). Um convento, uma jovem freira, uma fotografia em preto e branco: um plano cinematográfico perfeito (Ida). Uma personagem feminina, o marido e o espaço seleto de uma casa, todo o vazio de uma vida a dois, os silêncios, os pequenos gestos e diálogos, a crise da pós-modernidade nas relações na idade madura, seja aqui ou em Londres (Exibição). Treze telas de Edward Hopper, mulheres pictóricas e hiperrealistas, em imagens em movimento (Shirley).

Trinta filmes, de 18 países, a representação do cinema contemporâneo através do olhar de 33 diretores de cinema. Ficção ou realidade, pura fantasia ou poesia, camadas de imagens e sentidos que buscamos que o INDIE traga ao espectador e que assim se faça como espaço de ressonância dos diversos modos do fazer cinematográfico, do intercâmbio de ideias e estilos.

Nick Cave – 20.000 dias na terra, um dos documentários mais celebrados em 2014, é na verdade um filme de ficção. O personagem é o próprio Nick Cave que conta um pouco da sua vida, suas ideias, seus anseios e divide um dia com seu público. Um público afoito para entender o que o mantém ainda um cult. Os diretores Iain Forsyth e Jane Pollard fizeram um filme que foge ao cansativo padrão dos depoimentos, em uma montagem sofisticada que torna Nick Cave ainda mais à vontade no papel dele mesmo. Um mergulho.

O cinema latino-americano tem grande destaque nesta edição. Serão quatro filmes argentinos, reflexo de um evidente bom ano de produção do país: Dois disparos, o aguardado novo filme do celebrado cineasta argentino Martín Rejtman; Princesa da França de Matías Piñeiro e O escaravelho de ouro de Alejo Moguillansky & Fia-Stina Sandlund, três dos filmes mais elogiados exibidos nesta última edição do festival de Locarno. Completam ainda o programa Historia do medo, filme de estreia, de outro argentino, Benjamin Naishat e Os ausentes do mexicano Nicolás Pereda. Todos em estreia no Brasil.

Outro destaque, é a seleção de filmes japoneses. Dois diretores que, em anos anteriores, tiveram retrospectivas completas de seus filmes no festival. Kazuyoshi Kumakiri, que acaba de fazer 40 anos, continua com sua verve antagônica ao mainstream japonês. Em Meu homem, seus personagens são incomuns e estão à margem da sociedade japonesa. Kumakiri, coloca no centro de seu olhar, um homem e uma menina, e seu tom ficcional ainda é um tanto cheio de mistério, desespero e fantasia. Já o veterano e genial Kyoshi Kurosawa sai do Japão para criar um personagem, também feminino, na cidade de Vladivostok, na Rússia, em um diálogo com o jay-pop. Um filme estruturalmente leve, como um mangá, quase juvenil, mas ainda com sinais de sua força autoral, um toque de violência, um tom fantástico, incomum e surpreendente.

Dois novos diretores ainda foram selecionados para o Indie 2014. Quase opostos em estilo e proposta: Koji Fukada com seu lirismo bem inspirado em Eric Rohmer em Adeus, verão. Já Anatomia de um clipe de papel, premiado pelo júri com o Hivos Tyger Awards em Roterdã, Ikeda Akira cria um mundo à parte, completamente original e ficcional (quase uma fábula), para falar de algo muito contemporâneo: a submissão, o bullying, e principalmente a humilhação. Temas bem caros a uma sociedade que preza pela excessiva educação, pela bondade e coletivismo.

Do Japão para a Suécia. Três adolescentes, cheias de tédio e hormônios, descobrindo o punk (ele já morreu? Jura? Não pode ser!) e montando uma banda sem saber tocar nada. O cineasta sueco Lukas Moodysson volta a ter a adolescência como personagem, e o seu mal-estar da inadequação, mas agora de uma forma leve e divertida em Nós somos as melhores!

O diretor Pawel Pawlikowski nasceu na Polônia, mas foi em Londres que fez sua carreira. Ida é sua volta a terra natal, em um filme cinematograficamente clássico e impecável. A descoberta de uma identidade nunca imaginada, a triste história política de um país que atacou seu próprio povo, mas, principalmente, as escolhas que fazemos.

O INDIE ainda faz uma aposta mais arriscada em filmes que transitam entre o documentário e o experimental: Cartas para Max de Eric Baudelaire e O Ministério das Ferrovias de J.P. Sniadecki. São dois filmes que nos possibilitam mergulhar ainda mais fundo em um trabalho autoral desenvolvido por estes realizadores, que apesar de atuarem em cantos quase opostos da linguagem cinematográfica, de alguma forma se complementam em seu relato de documentar o outro e como nos relacionamos com um mundo que nos escapa.

Nessa edição, o INDIE também apresenta pela primeira vez uma sessão composta por curta-metragens como parte de seu programa: Eu esqueci de Eduardo Williams, Hillbrow de Nicolas Boone, e Belva Nera de Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoopis. Três filmes de cineastas que ainda não fizeram seu primeiro longa-metragem, mas que desejamos acompanhar seus passos desde já por acreditar que fazem um cinema potente, vibrante e essencial aos nossos olhos.

Para o INDIE é importante que esteja aqui um pouco de tudo que o cinema contemporâneo apresenta e que desta forma, para o espectador, o cinema tenha sempre um lugar de importância e representatividade que se espera dele.

Daniella Azzi, Francesca Azzi e Gustavo Beck
Curadoria

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