Filmes


UM JOGO BRUTALO SOM E A FÚRIABODA BRANCACELINEO ANJO NEGROOS EXCLUÍDOS DO BOM DEUSCOISAS SECRETASOS ANJOS EXTERMINADORESA AVENTURAA GAROTA DE LUGAR NENHUM

Restrospectiva Jean-Claude Brisseau

Mulheres nuas e sexo tornaram o cinema do francês Jean-Claude Brisseau reconhecido. Na essência um contestador e um homem de ideias filosóficas, Brisseau construiu uma cinematografia que vai muito além dos apelos eróticos que seus filmes aparentam à primeira vista.

Um cineasta verdadeiramente independente que aos 69 anos não segue, e nunca seguiu, o estilo dominante do cinema francês dos últimos 20 anos, os dilemas burgueses e da elite, e direcionou sua narrativa para as periferias de Paris, para Saint-Étienne, as escolas e a vivência dos professores (que Brisseau foi durante muitos anos), a violência de uma sociedade desigual e das famílias disfuncionais e, claro, o simbólico: o sexo. Seus filmes nunca foram construídos por uma só matéria: filosofia, sexo, violência, injustiça social, desejo e, claro, a beleza do corpo.

E há os fantasmas. Em quase todos os filmes há uma aparição, quase sempre feminina, espectral. Atrás de uma porta que se abre, no final de um corredor, pelos cantos, observando e, por vezes, interagindo. Ligeiramente, aparecem e desaparecem, não causam medo, parecem apenas nos lembrar da existência de um mundo que Brisseau diz ser onipresente, o mundo não estaria apenas no visível. Uma realidade quebrada pela lembrança do fantástico. Diferente do cinema asiático, os fantasmas de Brisseau parecem não representar uma entidade religiosa, ou uma crença, mas carregam mais um apelo alegórico e metafísico.

Seus personagens masculinos quase sempre são homens sérios, maduros, intelectuais. Alter egos? A parceria com o ator Bruno Cremer é marcante: o cientista psicopata messiânico de Um Jogo Brutal; o pai de família maluco, extremado, que pratica tiro em um apartamento na periferia de Paris em O Som e a Fúria; e o professor de filosofia apaixonado pela ninfeta em Boda Branca. Mas é o ator Frédéric van den Driessche que Brisseau escolhe para lhe representar em Os Anjos Exterminadores. O diretor acusado de assédio por atrizes que fizeram testes para um filme, precisa defender sua honra, mas, principalmente, o seu cinema. Por que sexo? Por que essas mulheres precisam transpor suas inibições sexuais?

A trilogia que Brisseau realizou sobre o prazer feminino e a transgressão dos tabus sexuais é composta pelos filmes Coisas Secretas (2002), Os Anjos Exterminadores (2006) e A Aventura (2008). As cenas de masturbação, sexo coletivo, sadomasoquismo e experiências eróticas que permeiam esses filmes marcaram imensamente a carreira de Brisseau. Seu interesse pelo prazer/desejo/gozo feminino parece legítimo (como qualquer outro interesse que ele viesse a ter), mas vale ressaltar o óbvio: é um ponto de vista masculino. Em uma entrevista, Brisseau disse que uma vez lhe disseram que ele como homem não poderia falar da sexualidade feminina. Não é para tanto, a temática artística não parece ser algo a ser definido pelo gênero, talvez apenas para as mulheres o processo de identificação com a visão de Brisseau sobre o desejo feminino, seja mais complexo.

Em seu último filme, A Garota de Lugar Nenhum, Brisseau faz o protagonista, um filósofo solitário, que um dia conhece Dora. Filmado em seu próprio apartamento, o que à primeira vista aparenta ser um filme simples, faz do encontro breve de duas pessoas, através do uso de muitos elementos fantásticos e mediúnicos, uma experiência existencial. É interessante pensar que Brisseau ganhou por este filme o Leopardo de Ouro, no Festival de Locarno de 2012, em um júri que era presidido pelo tailândes Apichatpong Weerasethakul. Os fantasmas do francês Brisseau encontraram ressonância.

E não, o cinema de Jean-Claude Brisseau não são apenas mulheres nuas e sexo, são também, mas são muito mais, em todos os seus filmes há uma busca por uma transcendência, uma inquietação quanto ao sentido da vida. (Daniella Azzi)