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A OESTE DOS TRILHOS - PARTE 1: FERRUGEMA OESTE DOS TRILHOS - PARTE 2: VESTÍGIOSA OESTE DOS TRILHOS - PARTE 3: TRILHOSFENGMING: MEMÓRIAS DE UMA CHINESAFÁBRICA DE BRUTALIDADEPETRÓLEO BRUTOO DINHEIRO DO CARVÃOO HOMEM SEM NOMEA VALATRÊS IRMÃSSOZINHA

Restrospectiva Wang Bing

Wang Bing: um mundo suspenso na busca do real

"A educação que a minha geração recebeu não reflete a realidade. De repente, ao entramos na década dos trinta, farei quarenta anos em novembro, começamos a perceber essa discrepância entre o que nos ensinaram e a verdade. Percebemos que estamos vivendo na irrealidade, que o mundo no qual temos vivido não é verdadeiro. A história ensinada na sala de aula estava muito desconectada da própria história. Portanto, esta foi uma motivação. A outra foi o fato de que, em geral, na China de hoje, as pessoas relutam em olhar para trás. Parece-me que, se você não olhar para trás, para sua história, não poderá observar claramente o caminho que deve ser seguido no futuro. As pessoas pensam à frente apenas sobre aquilo que querem para amanhã. O ontem é irrelevante e o hoje se torna irrelevante rapidamente. Se esse tipo de pensamento persiste, é muito problemático. Aquele tipo de vida parece suspenso no espaço vazio, isolado em uma espécie de ilusão, sem qualquer fundamentação. Isso cria em mim uma sensação desagradável, um desconforto psicológico que é difícil descrever." (Wang Bing em entrevista a Robert Koehler, Cinema Scope, 2007).

Quando recém formado em fotografia, em 1999, o jovem chinês Wang Bing alugou uma câmera DV e foi explorar o distrito industrial Tie Xi Qu, vizinho a cidade de Shenyang. Ele não sabia que este seria o seu primeiro passo para entrar para a história do cinema mundial, ao construir uma trilogia que expõe o declínio dos modos de produção comunista: A Oeste dos Trilhos. Com seu olhar persistente e atento, Wang Bing trouxe à tona uma China jamais vista de tão perto pelo Ocidente. Gravou exaustivamente a decadência de três grandes indústrias de metais pesados, ícones da região nordeste do país, onde trabalharam mais de um milhão de operários.

Transformadas, na virada do século 21, em imensas ruínas resultantes das reviravoltas incompreensíveis do insano idealismo político daquele país. A Oeste dos Trilhos está dividido em 3 partes com uma duração total de 9 horas: Ferrugem, Vestígios, Trilhos.

Como diz Wang Bing, "a fábrica é minha protagonista", e é ela que atua na primeira parte. A câmera de Wang vaga pelos imensos espaços, quase vazios, mas ainda em funcionamento. Encontra os operários, observa o dia a dia, suas tantas falas, seus silêncios, banhos nus, lanches, idas e vindas. Em Vestígios, ele parte, então, para as comunidades que moram no entorno das fábricas. Ali investiga a vida dos jovens, dos idosos e todos que esperam por um posicionamento do sacralizado/dessacralizado governo , por uma decisão sobre o fechamento das fábricas e a definição de seus destinos. Wang entra nas casas, quartos, cozinhas, favelas, com pouca estrutura, sem aquecimento, em um inverno rigoroso, as pessoas estão descobertas, descontentes, preocupadas. Seu olhar nada apressa. Na terceira parte, resolve partir nos trens que atendem toda a região, e fica dentro e, ao mesmo tempo, fora ao acompanhar os maquinistas e operadores, assim como os que vivem à margem, de pequenos golpes e serviços em torno da linha férrea.

Wang não faz concessões nas suas escolhas formais. No artigo "Enunciation and Tact in Wang Bing’s cinematography", Jie Li entra em detalhes sobre sua maneira de filmar. "Ele evita a música extradiegética, o comentário, ou qualquer fonte adicional de iluminação além da já existente no local, seja ela uma iluminação plana, superior, fluorescente ou uma vela de cintilação. Ele não nos poupa do embotamento monótono, do clamor das máquinas, nem da escuridão ou do brilho ofuscante. Ele cria seus ângulos de câmera principalmente a partir das perspectivas reais ou potenciais de seus personagens, exceto no caso das entrevistas, quando frequentemente filma a partir de um ângulo baixo, talvez por uma questão de humildade e respeito. Muitas vezes, sua pequena câmera DV é colocada sobre a mesa, juntamente com uma garrafa térmica e alguns trapos, para que a câmera pareça um objeto banal, despojado de seus poderes de vigilância. Ou, quando segurada por Wang Bing, ela é percebida apenas como outro familiar par de olhos, os quais não são confrontados, nem evitados pelos outros olhos presentes na sala. Os personagens de Wang Bing ficam tão à vontade que até parecem dispostos a andar nus na presença de sua câmera".

Essas três obras de Wang Bing: A Oeste dos Trilhos (1999-2003), Fengming - Memória de Uma Chinesa (2007) e Petróleo Bruto (2008) são antológicas e definidoras de sua estética. Seu apreço pela observação silenciosa, seu enquadramento meticuloso, seu vínculo com a oralidade dos personagens, com o passado obscuro, histórico e político de seu país, e principalmente sua estrutura narrativa calcada no tempo para a busca de uma epifania do real.

Em Fengming – Memórias de Uma Chinesa, a protagonista relata sua longa incursão e punição na Revolução Cultural Chinesa quando ela e o marido, ainda jovens jornalistas, foram presos como "direitistas" e inimigos do Estado, colocados separados em campos de trabalho forçado - um lugar de humilhação, castigos físicos e morte, que mascarado de pedagogia comunista, significou um tipo de "holocausto chinês", não reconhecido pelas suas atrocidades devido ao total fechamento do governo chinês para o resto do mundo.

Já em Petróleo Bruto, durante 14 horas, vamos acompanhar/observar em tempo real, o que acontece com trabalhadores isolados em uma estação de petróleo, a mais de 3000 metros de altitude. Esta obra que foi concebida como um filme instalação, pode ser vista em partes ou na íntegra, dando liberdade para que o espectador entre e saia, quantas vezes quiser. Seu radicalismo está em tentar realizar o desejo do filme sem cortes, e ainda mais, humanizado por figuras que estão fora de seu estado de prazer, apenas condenados ao trabalho e a espera. O tempo e o silêncio são o inimigo número um dos operários e do espectador, que espera por algo que talvez não aconteça.

Em 2010, Wang Bing realiza seu primeiro filme de ficção chamado A Vala. Se baseia no livro de Yang Xianhui intitulado "Goodbye, Jiabiangou" e aparentemente também nos relatos da Sra. Fengming. Apesar de ser uma obra ficcional, Wang, revela o horror vivido nos campos de trabalho forçado e toca nas feridas deixadas abertas pelo governo comunista chinês. Um filme historicamente revelador e ainda hoje banido na China.

Em 2012, lançou Três Irmãs (Orizzonte Award de melhor filme em Veneza) e sua versão reduzida, Sozinha. Acompanha de perto três crianças pobres, de uma família de camponeses que apesar de estarem próximas aos avós e tios, vivem sozinhas por abandono da mãe. A mais velha, Yingying, é deixada ainda mais sozinha, quando o pai resolve levar as duas menores para a cidade.

O Indie 2013 fará a pré-estreia de seu último filme Feng Ai (Til Madness Do Us Part), que documenta, meticulosamente, a rotina diária da vida de doentes mentais isolados em um hospital no sudoeste da China.

Wang Bing faz parte da chamada Sexta Geração de diretores chineses (são chamados assim porque foram a sexta geração a se graduar na Academia de Cinema de Pequim) que se recusa a submeter suas idéias e obras a rígida censura e a padrões estilísticos ultra-conservadores de produção da indústria cinematográfica chinesa. Entre eles estão: Jia Zhangke, Liu Bingjian, Wang Chao, Zhu Wen, Emily Tang, Liang Ying. A busca de uma proximidade com o realismo e com personagens marginalizados ou excluídos marcam a produção em digital desta geração, na qual muito de seus membros é, ainda hoje, proibida de exibir seus filmes na China.

O cinema de Wang Bing de tão próximo ao real, coloca-o em suspenso. A busca por uma verdade histórica ou por uma história não contada oficialmente - através de seus personagens que ele calmamente observa e escuta em prol da revelação literal de uma China para si, para o outro e para o mundo; expurga suas intenções narrativas em intenções políticas, e eleva seu cinema a condição de obra de arte. (Francesca Azzi)