Filmes


A FLORESTA DE JONATHASO GORILASINFONIA DE UM HOMEM SÓO EXERCÍCIO DO CAOSLINZ - QUANDO TODOS OS ACIDENTES ACONTECEMMÚSICA SERVE PARA ISSO - UMA HISTÓRIA DOS MULHERES NEGRASSOPRO

zombie indie

PORTO DOS MORTOSMAR NEGROZOMBIO 2: CHIMARRÃO ZOMBIES

Indie Brasil

O conjunto de filmes a ser exibido este ano no Indie Brasil tem por característica essencial a relação bastante evidente entre seus realizadores e personagens (reais ou fictícios) com a natureza. Não se trata simplesmente de uma relação física, mas também moral, cósmica e espiritual. Cineastas como Abbas Kiarostami, Apichatpong Weerasethakul, Andrei Tarkovski e Terrence Malick parecem estar referenciados no encadeamento de sons e imagens de vários destes trabalhos, porém todos possuem originalidade própria, que os identifica a um tipo de brasilidade nem sempre de fácil apreensão imediata.

A aparente universalidade de filmes como Sopro e O Exercício do Caos só existe na medida em que os diretores, ao se entregarem ao ambiente onde decidem posicionar suas câmeras e exprimir um olhar, permitem que características tipicamente brasileiras se integrem à visão mais ampla em relação àquilo que captam. Uma vila no interior de Minas Gerais onde as pessoas e os elementos naturais parecem uma coisa só, apenas diferenciados efetivamente pela face e expressões humanas, ou uma área de plantação de mandioca numa zona rural do Maranhão, na qual seguimos a estranha relação de uma família com o capataz do local – são dois ambientes que guardam muito de sua especificidade geográfica, sem por isso deixar de transmitir sensorialidades e entendimentos para além de onde estão localizados.

Quase o mesmo se pode afirmar sobre Linz – Quando Todos os Acidentes Acontecem e Sinfonia de um Homem Só, com a diferença de que, nestes, somos convidados a seguir as andanças dos protagonistas. No primeiro, o entregador de móveis é o profissional que sai da urbanidade para dentro das dunas cearenses e, naquele espaço, parece se transformar ele mesmo num montante de areia; já no outro, o operário da cidade se encaminha para o interior na busca pessoal por algum tipo de recalibragem íntima que ele parece ter perdido e que talvez só possa ser reencontrada no contato com algo acima de seu próprio entendimento.

A Floresta de Jonathas, por sua vez, já incorpora a natureza desde o título do filme, e dela não se desgarra em nenhum momento. Estamos no interior do Amazonas, e o estopim se dará inicialmente entre irmãos e, depois, com turistas, para então desembocar num longo caminhar do protagonista perdido entre árvores e bichos. O rapaz acredita conhecer o ambiente, até se dar conta de que o ambiente talvez o conheça muito melhor – e essa tomada de consciência, o convite da natureza para que ele se embrenhe por ela (e que virá após ele desejar a turista estrangeira), colocará o filme num estado de suspensão que não se ensaiava até então.

O Gorila quebra as relações acima comentadas ao se ambientar estritamente no espaço urbano. Em clima de thriller devedor ao cinema de Roman Polanski, o filme se sustenta numa narratividade inicialmente clássica que se desintegra junto com a mente do protagonista. Dublador de filmes de TV, esse personagem, falso por definição, vai precisar achar a si mesmo dentro dos intrincamentos do filme para tentar se salvar. Em Música Serve pra Isso, passamos ao universo do documentário de resgate e memória, ao seguirmos lembranças sobre o grupo oitentista Mulheres Negras, chamado jocosamente de "a terceira menor big band do mundo" e cuja sonoridade remete a ritmos africanos.

Incorporado este ano ao Indie Brasil, temos a mostra Zombie Indie. A trinca de filmes "malditos" revela a produção contemporânea recente de horror brasileiro, feita totalmente à margem e com abordagens diferenciadas da temática do zumbi, em moda hoje por conta do seriado televisivo The Walking Dead. Que o espectador não se iluda: Mar Negro, Porto dos Mortos e Zombio 2 são, de modos muito particulares, filmes desprovidos de pudores e nos quais a violência, a monstruosidade, o sexo, o grotesco, o humor e (quem diria) o lirismo encontram estranhas e muitas vezes perturbadoras formas de se manifestarem.

Marcelo Miranda
Curador convidado