Porto Alegre / Entrada Franca

Apenas o Vento
Csak A Szél

Benedek Fliegauf / Hungria / 2012 / Digital / 86min.

Em uma aldeia húngara, as notícias sobre o assassinato de famílias pobres de origem cigana se espalham rapidamente. Ninguém se manifesta sobre a possível identidade dos assassinos e os crimes parecem ter motivação racial. Mari mora com seu pai inválido e os dois filhos em um barraco, localizado em um bosque fora da cidade. Ela faz malabarismos com seus dois empregos e tenta manter sua rotina em meio à ansiedade da ameça de violência. A adolescente Anna tenta se concentrar em seu trabalho escolar, mas o jovem Rió está preocupado com outras coisas. Ele esta se preparando... Fliegauf se baseou em uma série de assassinatos reais ocorridos na Hungria. A câmera segue de perto os protagonistas, tornando o desenrolar dos acontecimentos algo fisicamente palpável.

Hotel Mekong
Mekong Hotel

Apichatpong Weerasethakul / Tailândia/Reino Unido / 2012 / Digital / 61min.

No nordeste da Tailândia, às margens do rio Mekong, que marca a fronteira com o Laos, está o Hotel Mekong. Apichatpong Weerasethakul ocupa seus quartos e varandas para ensaiar Ecstasy Garden, um filme que escreveu anos atrás. Neste espaço, recria uma narrativa que embaralha diversos níveis de realidade, fato e ficção, para explorar os vínculos possíveis entre uma mãe vampira e sua filha, jovens amantes e o rio Mekong que flui como o som da música de Chai Bhatana. Filmado em meio a grandes inundações que afetaram esta região em 2011, Weerasethakul entrelaça diferentes camadas de sentido: destruição, política e sonhos à deriva do futuro.

Vestígio
Chiri

Naomi Kawase / Japão / 2012 / Digital / 45min.

Naomi Kawase nasceu em um mundo de pais ausentes. Como a tia e o tio de sua mãe não tinham filhos, ela foi colocada, logo após seu nascimento, sob os cuidados de ambos e, aos 10 anos, foi legalmente adotada por eles. De acordo com os registros familiares, na época da adoção seus pais já estavam com 65 anos de idade. Quatro anos mais tarde, seu amado pai adotivo, Kenichi, falece. Diante disso, a diretora, então com 14 anos, não tem outra opção a não ser tocar sua vida a dois, com a mãe adotiva, que não tem nenhuma fonte de renda. Partindo da sua observação direta, o que encontramos aqui é a história do final da vida de sua mãe adotiva, já com 95 anos de idade. Ao seguir o cotidiano dessa mãe, em sua luta diária pela sobrevivência frente à aproximação da morte, Naomi Kawase reflete profundamente sobre os temas fundamentais das produções de seus próprio filmes. Esse trabalho pode ser considerado o ponto culminante de uma série de documentários pessoais — cujo primeiro é intitulado Embracing — a partir dos quais Kawase abraça o cinema e transforma a história de sua vida pessoal em um conto de ressonância universal.

Cargo 200
Gruz 200

Aleksey Balabanov / Rússia / 2007 / 35mm / 90min.

Cargo 200 é provavelmente o filme mais comentado da carreira de Balabanov, que o usa para explicar tudo sobre si mesmo, seu país e seus heróis, de um modo ainda mais explícito do que em seus trabalhos anteriores. Este thriller áspero, passado na época anterior à Perestroika, conta a história de um policial maníaco, sua mãe, um professor universitário ateu, o líder do partido local e sua filha, além de muitas outras pessoas da pequena cidade soviética de Leninsk. O cenário de fundo é a guerra afegã-soviética. Gruz 200 é um termo militar usado para descrever o carregamento dos cadáveres enviados para casa depois da guerra. Balabanov queria criar uma imagem do “corpo” agonizante da URSS e fazer uma declaração contra o surgimento de certa nostalgia dos tempos soviéticos. Um pequeno artigo de jornal se tornou a inspiração para este retrato da decadência moral daquele período. A filha do líder do partido comunista local desaparece sem deixar vestígios, após sair de uma discoteca. Durante a mesma noite, um assassinato cruel é cometido na periferia da cidade. Ambos os casos são investigados pelo capitão de polícia local. A imagem final daqueles tempos parece ser dolorosamente realista, ou melhor, quase surrealista. Mais do que um filme, o que Balabanov faz, aqui, é uma autópsia de seu país.

O Matador de Ovelhas
Killer of Sheep

Charles Burnett / EUA / 1977 / 35mm / 80min.

O matador de ovelhas retrata um gueto negro de Los Angeles, o bairro de Watts, em meados dos anos 1970, pelos olhos de Stan, um homem sensível e sonhador que sobrevive alheio e indiferente ao custo psíquico decorrente de seu trabalho em um abatedouro. Porém, mesmo se sentindo frustrado com seus problemas financeiros, ele encontra alento em momentos de beleza singela: o calor de uma xícara de chá em seu rosto, uma dança lenta com sua esposa, a filha em seus braços. O filme não oferece qualquer solução, apenas mostra a vida: às vezes de forma assustadoramente sombria, às vezes cheia de alegria transcendente e humor delicado. O matador de ovelhas foi apresentado em alguns poucos festivais e universidades antes de receber o prêmio da crítica no Festival de Berlim de 1981. Por sua importância histórica, o Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos o incluiu, no ano de 1990, na lista das 50 obras a serem preservadas, como tesouro nacional, pela Biblioteca do Congresso Nacional norte-americano. Em 2002, a Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos classificou-o como um dos 100 filmes essenciais de todos os tempos. O matador de ovelhas, primeiro longa de Burnett, foi apresentado como dissertação de mestrado do curso de cinema da Universidade da Califórnia (UCLA) em 1977. O filme foi rodado em locações perto da casa de sua família em Watts, numa série de finais de semana, com um orçamento baixo, de menos de dez mil dólares, cuja maior parte foi conseguida por meio de subvenções. Com seu elenco majoritariamente amador (formado por amigos e conhecidos de Burnett), uma narrativa descontínua e um audacioso estilo documentário foi comparado, por estudiosos e críticos de cinema, aos filmes italianos neorrealistas, tais como Ladrões de Bicicleta de Vittorio De Sica e Paisà de Roberto Rossellini. No entanto, Burnett cita Canção de Ceilão e O Correio da Noite de Basil Wright e O Sulista de Jean Renoir como suas principais influências. Apesar desses elogios, o filme nunca teve grande distribuição por causa dos custos e de complicações com os direitos autorais sobre a trilha sonora (que inclui canções de Etta James, Dinah Washington, Gershwin, Rachmaninov, Paul Robeson e Earth, Wind & Fire). Em suas raras participações em festivais e museus foram exibidas cópias em péssimo estado, em 16mm. Agora, trinta anos depois, uma nova película em 35mm foi restaurada pelo Arquivo de Cinema e Televisão da UCLA. O filme foi relançado nacionalmente em 2007, com aclamação da crítica. A Time Magazine o considerou um dos “25 filmes mais importantes em se tratando de questões de raça.”