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21 notas incompletas sobre Béla Tarr

“Meu ponto de vista moral questiona para mim aquilo que penso.” (B.Tarr)

1. 1977. Para um jovem diretor húngaro de 22 anos, o cinema estava indo de mal a pior. Distante da sua realidade, os atores e cenografias pareciam artificiais, os roteiros medíocres. Ele queria mais do cinema. Com este impulso de ser um “film fighter” como ele mesmo diz, Béla Tarr realizou seu primeiro filme “no budget” - sem dinheiro algum, “Ninho Familiar”. Convidou pessoas comuns (atores não profissionais), improvisou câmera e roteiro e criou um filme que discute de maneira intensa a questão da moradia e do espaço das relações familiares na Hungria comunista. Enclausurados numa convivência forçada com toda família num apartamento, um casal vive esta impossibilidade utópica do “viver junto”. A individualidade é esmagada pelas desavenças. A câmera é claustrofóbica como o exíguo espaço urbano.

2. Béla estava no auge de sua juventude quando se juntou aos amigos para criar o que foi reconhecido como a Budapest School. Um grupo de documentaristas de um lado e artistas experimentais do outro que disputavam as verbas do Estúdio de Béla Balázs. Preservavam o realismo mas Béla pendia para a “coisa” poética, estando no limiar entre ficção e documentário desde o início e sempre.

3.1980. Lança “O Outsider”, filme que traz a figura emblemática do sujeito, Andras, com um talento nato para música, mas esmagado neste confuso e burocrático sistema em que se vê perdido. As más condições de vida levam a refletir mais sobre o sistema. “Não é só um problema social, mas ontológico, quase cósmico”, como diz Béla.

4. 1982. “Pessoas Pré-fabricadas” parece complementar (com “Ninho Familiar” e “O Outsider”) a trilogia da desagregação social e familiar. A classe operária é a personagem de Tarr. Pela primeira vez contrata atores profissionais.

5. Béla Tarr prefere o não ator ou o ator “não tão bom”. Para expor sua personalidade real?

6. 1981. Béla Tarr se forma na Academia Húngara de Teatro e Cinema, mas agradece mesmo ao professor que lhe diz: “Não fique sentado aqui, vá e filme!”. Faz “Macbeth”, em 82, adaptação de Shakespeare para a TV, mas radicaliza nos longos planos, na atmosfera. Macbeth do seu jeito, diria.

7. Começa a refinar seu estilo. Seu cinema trata da decadência e dos distúrbios da sociedade, embora com um viés metafísico. A construção deste homem imaginário e real.

8. O cinema de Béla, como é conhecido hoje, se delineia assim emblemático a partir de “Maldição” (1987). A fotografia preto e branco, uma espécie de continuidade psicológica, longos silêncios, monólogos, longos e poucos planos, a composição suntuosa do quadro, a música, e uma câmera inconfundível que escrutina o ambiente em travellings lentos e sóbrios. E os temas repassam a moral deste homem: suas escolhas, a solidão, sua dignidade.

9. “Todos os heróis são solitários.”

10. Segundo Béla, cabe ao diretor ter tudo meticulosamente planejado para que algo aconteça ali, intensamente. É fundamental a escolha da locação, a precisão, para que o imprevisto, a improvisação dos atores aconteça.

11. Me parece que toda a trajetória de Béla Tarr apontava para o nascimento de sua obra- prima “Satantango” em 1994. Um filme de 7 horas e 15 minutos que possui apenas 150 planos, baseado no livro de László Krasznahorkai.

12. Béla vai para o campo, muda-se a perspectiva do homem e do espaço.

13. “Satantango” está dividido em 12 partes assim como o tango. Uma comunidade rural comunista está falida, e seus moradores pretendem abandonar o lugar. A decadência física e moral nos faz perguntar: que homem é este? Que mente, trai, mata e espia o outro? Chove, está frio, e a vida corre num ritmo estranho. Tarr talvez queira dizer muito pouco, mas a intensidade do que diz faz valer cada minuto. Cada evento é contado mais de uma vez, sob um outro ponto de vista, criando assim um quebra-cabeças engenhoso e soturno.

14. Que homem é este, Béla? “Quero acreditar que todos nós temos a humanidade no sangue. É uma ilusão, eu sei.”

15. O escuro de Béla Tarr é mais escuro do que o escuro da noite.

16. O vento de Béla Tarr é o vento. O indizível do vento, o vento absoluto, o vento cruel, a metáfora do vento, a espera do vento. Segundo ele, o cinema é feito de informação, tempo, espaço. Não apenas de narrativas ou história mas este algo entre.

17. 2007. “O Homem de Londres”, baseado no livro de Georges Simenon, compete no Festival de Cannes.

18. 2011. “O Cavalo de Turim”, ganha o Urso de Prata em Berlim. Béla Tarr é aclamado como um dos mais completos e inovadores diretores contemporâneos do cinema autoral.

19. Em “O Cavalo de Turim” abandona quase completamente a história em si. A repetição é o fio condutor destas três vidas (o pai, a filha e o cavalo). Negando esta sequência de fatos narrativos novos, implementa esta repetição como fato em si “cinematográfico”. Tarr nos coloca diante de uma angústia, uma sensação de vida como ela é. Mas que, na verdade, é artificializada num excesso de realismo causado nos detalhes. A fotografia preto e branco, o som forte da música, a casa, naquele lugar, numa vida campestre, extremamente dura no século XIX, as condições climáticas e os personagens. O silêncio dos planos.

20. Qualquer coisa que se diga sobre O Cavalo de Turim é incompleta. Sobre Béla idem. Viva a experiência cinematográfica!

21. Béla Tarr afirma que O Cavalo de Turim será seu último filme...

(francesca azzi)