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aquilo que pulsa (na mente) em Claire Denis

“O cinema nos dá prazer, certamente. Mas mais do que tudo pra mim, fazer cinema é uma viagem no impossível”
“The cinema gives pleasure, certainly. But most of all for me, filmmaking is a journey into the impossible”

É raro conseguir reunir toda a obra de uma artista como Claire Denis no tempo e espaço.
Pois aqui estão: seus 20 filmes, sendo 11 ficções, 3 documentários e 6 curtas.

Claire Denis é uma mulher intensa, falante, articulada, uma curiosa: “Estou sempre interessada nos indivíduos e como eles respondem aos desafios ou às dificuldades, ou apenas um ao outro”. Essa sua intranquilidade reflexiva e inteligência juntamente com seu universo pessoal refletiram muito nas escolhas narrativas e personagens de seus filmes.

Nascida em Paris em abril de 1948, Claire viveu parte de sua infância e adolescência na África. Seu pai, um administrador nas colônias francesas, era um libertário e poliglota. A família de Claire mudava-se de casa a cada dois anos... entre Camarões, Burkina Faso e Djibouti. Denis amava a África e ficou triste quando aos 13 anos, ela e sua irmã foram forçadas a voltar para Paris. “Quando voltei para a França eu me dei conta de que tinha visto estas coisas que outras crianças não tinham: elefantes, zebras, deserto. Coisas que as crianças sonhavam, eu tinha visto com meus próprios olhos!” Com 17, ela tenta voltar a estudar no Senegal mas alguma coisa parecia não funcionar mais...

No final dos anos 60, retorna a Paris para formalizar seus estudos em cinema no conceituado IDHEC. Já não se sentia completamente em casa, nem em Paris. Sentiu na pele o que era ser um estranho ou estrangeiro no seu próprio território. Tema que abordará mais tarde no curta “Vers Nancy”, uma longa entrevista com o filósofo Jean-Luc Nancy que teoriza sobre o conceito de estrangeiro como “intruso”, (países como a França, que possuem uma forte identidade nacional tem uma noção distorcida de que a assimilação e integração sociais poderiam abarcar as diferenças culturais, e acabariam por gerir uma forte segregação). O livro de Nancy deu origem mais tarde a um de seus filmes mais cultuados, “O Intruso” (2004).

“Não tenho o sentimento de pertencer a lugar nenhum. Quando eu era pequena eu queria pertencer ao território africano. Cresci entre brancos e negros. Mas o mundo atribui lugares.” Claire Denis sempre quis falar da África, do fim da colonização. “Explicar meu lugar em relação à África. Meu lugar simbólico. A África é necessária ao mundo.”

Nos anos 70, começa efetivamente a fazer assistência de direção de grandes cineastas como Jacques Rivette, Costa Gravas, Jim Jarmusch e Wim Wenders. “Foi assim que me apaixonei realmente pelo cinema, comecei a gostar de todo o processo de organizar tudo, da tecnologia, dos atores e da equipe, é uma experiência da arte em ação.”

Em 1988, seu primeiro filme, já indicado ao César, “Chocolate” é inspirado num artigo publicado no Libération sobre a África como uma espécie de babá cósmica. Nele, Dennis explora a relação entre uma menina e seu empregado negro e a tensão social entre colonizadores e colonizados. Mas Denis detesta que o chamem de autobiográfico, assim como seu último filme “Minha Terra, África” (2010). Tão pouco acredita que os filmes estão interligados: “Chocolate” é sobre amizade e família e talvez sexo. “Minha Terra, África” é sobre permanecer forte diante do perigo”, contesta.

“Chocolate” (1988) pode parecer o mais comportado e acadêmico de seus filmes mas foi um marco no cinema francês. Claire começa a partir daí a explorar temas recorrentes em seus filmes subsequentes. Seus personagens principais quase sempre são negros, outsiders, criminosos, incompreendidos, demasiadamente humanos. Seus temas pendem para a questão filosófica do humano, e claro, do desejo, da pulsão, da violência.

A narrativa de Claire é construída com energia e sutileza, um tempo-espaço para desvelar. Pistas são entregues, nunca o todo. Restam sensações. Coloca o espectador como alguém ativo, precisa ajudar a montar o filme, um pouco juntos. Este é o enigma do cinema de Claire, não entregar nada pronto. O sobressalto não é o fato em si... é um pouco antes do..., é um pouco depois do...

Denis valoriza muito o ator, seu silêncio, sua fala, o corpo do ator, a coreografia do movimento, sua presença. Claire trabalha com uma equipe de colaboradores frequentes, incluindo o roteirista Jean- Pol Fargeau, a diretora de fotografia Agnès Godard, a montadora Nelly Quettier, o compositor Stuart Staples (dos Tindersticks) e os diversos atores que marcam presença em seus filmes, como Alex Descas, Isaach de Bankolé, Grégoire Colin, Béatrice Dalle e Vincent Gallo.

Entre os filmes mais aclamados e imperdíveis, que estão nesta retrospectiva: “Dane-se a morte” (1992), sobre dois emigrantes africanos envolvidos com rinhas de galo; “Bom trabalho” (1999) uma readaptação homoerótica de Billy Budd (Melville) na Legião Estrangeira no deserto da Algéria; o poético “Nennete e Boni” (1996); “35 doses de Rum” um conto sobre um trabalhador de família numa Paris multi-étnica e o cult “Desejo e Obsessão” (Trouble Every Day, 2001) que traz algo sobre o lado vampiresco do amor.

Claire Denis é sem dúvida uma das vozes artísticas de maior expressão do cinema contemporâneo e independente internacional. Ei-la pour toi! (francesca azzi)